Aedes do Bem! se consolida como tecnologia segura

Mosquitos pintados de laranja para estudo sobre tempo de vida e área de dispersão do Aedes do Bem! (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Agências e autoridades reconhecem: além de eficaz, o Aedes do Bem! não apresenta riscos ao ambiente

Em 5 de agosto, o FDA (Food and Drug Administration), agência responsável pelo controle de alimentos e fármacos nos EUA, divulgou um documento concluindo que o Aedes do Bem! não apresenta riscos para a saúde do ser humano e da natureza. A decisão coroou a reputação de segurança que já vinha sendo conquistada pelo mosquito geneticamente capaz de combater o inseto transmissor de dengue, Zika e chikungunya.

No Brasil, o órgão responsável por regular produtos geneticamente modificados é a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), entidade que já havia atestado a biossegurança do Aedes do Bem! em abril de 2014. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), afirma agora que prepara a emissão de um dispositivo análogo ao RET (Registro Especial Temporário) para o Aedes do Bem!, enquanto cria um marco regulatório listando as condições para liberação comercial da tecnologia.

Não foram só as agências reguladoras que reconheceram a segurança da tecnologia inovadora, porém. Gestores públicos e pesquisadores também seguem o mesmo caminho – confira o que eles têm a dizer sobre a segurança da tecnologia do Aedes do Bem!:

 Gabriel Ferrato – Prefeito de Piracicaba

“A gente tomou o cuidado de verificar a experiência que a empresa já tinha feito com o Aedes do Bem!. Como tinha dado resultados positivos, tomei a decisão [de usar a tecnologia]. Sempre há grupos contrários, que acham que a transgenia afeta negativamente o ser humano, mas vendo os resultados da aprovação da CTNBio eu falei :

‘São cientistas brasileiros que avaliaram que não tem nenhum problema’.

Eu me cerquei de cuidados, tanto que a decisão tomou cerca de um ano. Eu sabia que era uma tecnologia que de fato ajuda a enfrentar o problema.”

Pedro Mello – Secretário de Saúde de Piracicaba

“Estamos nos baseando em parecer da  CTNBio que, sob o comando de cientistas renomados, autorizou o uso do Aedes do Bem! para fim de controle do Aedes aegypti, o mosquito vetor do vírus da dengue, Zika e chikungunya, levando em consideração que não existe a proliferação da prole fecundada por ele [macho geneticamente modificado] – além do fato de que o mosquito macho não pica. Os estudos científicos nos deram todas as garantias de segurança necessárias, que foram devidamente transmitidas à população.”

Odir Dellagostin – Doutor em Biologia Molecular e membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) de 2010 a 2014

“O Aedes do Bem! não apresenta riscos adicionais ao meio ambiente, aos seres humanos e aos animais quando comparado à mesma espécie não geneticamente modificada. Acredito que a tecnologia tenha um grande potencial para contribuir com o controle do mosquito, e consequentemente reduzir os casos das doenças transmitidas.”

Carlos José de Carvalho Pinto – Biólogo, professor universitário e presidente da Comissão de Controle ao Aedes aegypti da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)

“Considero a tecnologia do Aedes do Bem! segura pelo seguinte: os mosquitos são criados em laboratório e, por sua modificação genética, somente conseguem sobreviver pois lhes é oferecida uma substância chamada tetraciclina, que os mantém vivos em laboratório. Os machos são soltos em áreas onde há transmissão de dengue e copulam com fêmeas na natureza, passando a característica genética de serem dependentes de tetraciclina para sua prole que, como não tem acesso a essa substância química, morre. Embora seja possível encontrar tetraciclina em alguns ambientes, como esgoto de clínicas e hospitais, este não é o local adequado para criação do Aedes aegypti, ou seja, provavelmente todos os mosquitos soltos e sua prole vão morrer, o que ajuda a diminuir o número de mosquitos transmissores de dengue. Finalmente, não temos evidências científicas de que a tecnologia utilizada na produção do Aedes do Bem! tenha algum risco para os humanos.”

Silvia Gobbo – Ecóloga e professora da UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba)

“É muito mais fácil mostrar que o Aedes do Bem! é seguro do que mostrar que um pesticida é seguro. Algumas pessoas falam que por causa da transgenia pode haver uma mutação e o macho começar a picar. O macho não tem o aparelho bucal para picar uma pessoa, além de não ter a necessidade de maturar os ovos, então não há motivos para o macho passar por essa mutação.

De nenhum lado que eu olhe – seja do mais leigo ou do mais científico – essa mutação seria uma coisa possível.

E se o mosquito transgênico se tornar mais forte e eu não conseguir tirá-lo da natureza? Também não é possível, ele existe na natureza apenas por uns dias. Por fim, tem gente que tem medo que o Aedes do Bem! faça mal se for ingerido por uma pessoa, que poderia adquirir uma transgenia. Não, isso não vai acontecer, porque temos enzimas digestivas que vão digerir não só o mosquito, mas o DNA dele. E acabou.”

CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

“Podemos concluir, portanto, com base em todas as evidências apresentadas pela proponente, na literatura pertinente e em nossa avaliação de risco que o mosquito Ae. aegypti OX513A [também chamado de Aedes do Bem!] não apresenta riscos adicionais aos seres humanos e aos animais quando comparado à mesma espécie não geneticamente modificada. Somos, portanto, de parecer favorável à sua liberação.”

Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária

“A Anvisa decidiu que os mosquitos geneticamente modificados, utilizados para controle de vetores em saúde pública, são objeto de regulação sanitária, no que diz respeito à segurança sanitária de seu uso e em relação à sua eficácia. (…) Em relação ao caso concreto do Mosquito OX513A da Empresa Oxitec, e como se trata de uma tecnologia inovadora e distinta de todos os demais produtos regulados até o momento, a Anvisa vai estabelecer um instrumento análogo ao Registro Especial Temporário – RET para regularizar a utilização desse mosquito em pesquisas no território nacional (…).”

OMS – Organização Mundial da Saúde

“Essa tecnologia já demonstrou a habilidade de reduzir as populações de Aedes aegypti em experimentos de campo de pequena escala em vários países, mas há uma ausência de dados sobre o impacto epidemiológico. Esse comitê recomenda o desenvolvimento de um teste cuidadosamente planejado sob condições operacionais acompanhadas de um monitoramento e avaliação rigorosos e independentes para construir a capacidade entomológica que embase seu uso operacional.”

FDA – Food and Drug Administration (agência reguladora de alimentos e fármacos nos EUA)

“A probabilidade de a liberação do OX513A [conhecido no Brasil como Aedes do Bem!] resultar em efeitos tóxicos em humanos ou animais não alvejados ou efeitos alergênicos em humanos é extremamente baixa e o risco é irrisório. […] As consequências de liberação, sobrevivência e estabelecimento do OX513A no ambiente foram extensivamente estudadas: dados e informações desses estudos indicam que não é esperado que o uso investigativo dos Aedes aegypti OX513A cause qualquer impacto adverso significativo no ambiente ou na saúde de humanos e animais não alvejados além dos causados pelos mosquitos selvagens. O FDA, portanto, concluiu que, tanto individual quanto cumulativamente, o teste de campo não teria um efeito importante na qualidade do ambiente humano.”