Estudo genético traz pista sobre agressividade de atual vírus da febre amarela

Células humanas infectadas por vírus da febre amarela (Foto: CDC)
Células humanas infectadas por vírus da febre amarela (Foto: CDC)
Cientistas da Fiocruz sequenciaram genoma de micróbio colhido em meio a surto que já matou 259 pessoas

Após sequenciarem o material genético do vírus que causa o atual surto de febre amarela no Brasil, cientistas brasileiros apontam oito mutações como possíveis pistas para explicar a agressividade dessa linhagem do patógeno.

O trabalho científico, realizado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) no Rio de Janeiro, foi liderado pela bióloga Myrna Bonaldo e está descrito em um estudo[1] já submetido para publicação.

Os pesquisadores relatam que, dessas oito mutações – alterações genéticas que surgem naturalmente no curso da evolução do vírus –, sete estão em partes do material genético que determinam a forma do sistema de reprodução do patógeno.

O grupo da Fiocruz ainda não sabe quais traços físicos essas mudanças provocam, mas diz crer que “talvez estejam associados a uma vantagem seletiva na aptidão viral, que se reflete em sua habilidade de se espalhar infectando hospedeiros vertebrados e/ou invertebrados”.

Com 259 mortes e 497 casos não letais confirmados até agora em 2017, o surto da doença neste ano é 35 vezes maior que a média histórica registrada desde 1980. A maior parte das infecções ocorre em municípios perto da fronteira de Minas Gerais com o Espírito Santo.

“O surto atual de febre amarela no Brasil é mais severo relatado recentemente no país”, afirmam Myrna e colegas. “Ele se espalhou rapidamente para áreas onde a cobertura de vacina era praticamente nula e onde a atividade viral da febre amarela não era observada havia mais de 70 anos.”

A febre amarela no Brasil hoje ocorre, ao menos oficialmente, apenas no ciclo “selvagem”: transmitida de animais para humanos por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. A presença do Aedes aegypti, porém, também preocupa epidemiologistas, porque até a metade do século passado ele foi o principal vetor do vírus, em ciclo “urbano”, passando de humano para humano.

Uma explicação para essa explosão na incidência da febre amarela em 2017 ainda não foi levantada, e alguns cientistas especulam que existam razões ambientais para tal. Um possível papel do Aedes aegypti não está descartado, e não se descarta também que o advento de algumas mutações elucide parte desse mistério.

Para sequenciar o material genético do vírus, Myrna e seus colegas usaram duas amostras de sangue coletadas de macacos bugios mortos por febre amarela encontrados em Domingos Martins, no Espírito Santo, em fevereiro.

As mutações foram apontadas por meio de comparações dessas amostras de vírus com outras coletadas no Brasil e na Venezuela desde 1980. Apesar de vírus com essas mudanças genéticas terem sido encontrados pela primeira vez, não há como garantir ainda que já não estivessem circulando antes no país.

“Essa questão será clarificada com a elucidação do genoma de outros vírus de febre amarela circulando no surto atual”, afirmam os autores do estudo da Fiocruz.


[1] Genome analysis of yellow fever virus of Brazil ongoing outbreak reveals polymorphisms, por Bonaldo et al., em Memórias do Instituto Oswaldo Cruz,  4/abril/2017. Link: E-pub