Aquecimento global e saúde

Christiana Figueres, chefe da Convenção do Clima da ONU e Margaret Chan, diretora-geral da OMS, ao fundo (Foto: OMS/L. Cipriani)
Chefe da Convenção do Clima da ONU alerta sobre as consequências da mudança climática no aumento da incidência dos casos de dengue, Zika e chikungunya

O aquecimento global deve ter sérios impactos na saúde pública e a proliferação do mosquito transmissor da dengue, Zika e chikungunya é um dos problemas na lista de efeitos colaterais daquele que é o maior desafio ambiental do planeta.

Em discurso recente na Assembleia Mundial de Saúde, Christiana Figueres, chefe da Convenção do Clima da ONU, destacou a importância de os países agirem para prevenir as consequências da mudança climática na saúde.

“Ao atacar a mudança climática por meio da redução das emissões, estamos evitando a piora das condições de saúde no mundo”, afirmou Figueres a uma plateia de médicos e profissionais da saúde na sede da OMS (Organização Mundial da Saúde), em Genebra. E completou: “A menos que façamos o que temos de fazer contra a mudança climática, o dano financeiro direto à saúde seria algo entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões por ano por volta de 2030.”

Termômetros

O agravamento do aquecimento global deve ampliar a presença do mosquito transmissor da dengue, Zika e chikungunya por diversos motivos, o primeiro deles a expansão do hábitat do inseto. Com o aumento médio de temperatura em praticamente todas as regiões do planeta, acredita-se que áreas em latitudes onde o mosquito ainda não está totalmente presente, por serem mais frias, passarão a acomodar populações dele por períodos mais longos.

Além disso, desde 2000 a OMS compila evidências científicas de que territórios de maior altitude em áreas tropicais, muitos dos quais livres de dengue, também deverão se tornar hábitat do Aedes aegypti. O mesmo vale para mosquitos Anopheles, transmissores da malária.

“Um sexto de todos os casos de incapacitação sazonais se devem a doenças transmitidas por vetores, e isso vai crescer astronomicamente com a mudança climática, se ela não for combatida”, afirma Figueres. “O peso é maior sobre países em desenvolvimento, onde a mortalidade por essas doenças transmitidas por vetores é 300 vezes maior que a dos países desenvolvidos.”

Água parada

Mas não é só por causa da temperatura que o transmissor da dengue, Zika e chikungunya será beneficiado pela mudança climática. Segundo o quinto relatório de avaliação do IPCC (Painel de Cientistas do Clima da ONU), publicado em 2014, problemas mais frequentes relacionados a chuvas também ajudarão o mosquito a se multiplicar.

Eventos climáticos extremos, como tempestades, devem ocorrer com mais frequência em muitas regiões, diz o painel. Esses fenômenos dificultam o combate ao surgimento de focos de proliferação do mosquito em água parada. Em áreas atingidas por furacões e tufões, por exemplo, infraestrutura destruída e lixo espalhado nas ruas criam muitos reservatórios onde a água se acumula. Estudos já mostram que a incidência de dengue aumenta em lugares submetidos a essas situações, e que esses fenômenos atmosféricos vão se intensificar com o aquecimento global.

Em algumas regiões do planeta, porém, a mudança climática tende a provocar estiagem, em vez de chuva e umidade. Mas mesmo esse tipo de situação pode provocar aumento na incidência de dengue. Segundo o IPCC, a seca estimula as populações mais pobres a usarem recipientes abertos para armazenar água, e o mosquito pode se proliferar em cisternas e caixas d´água mal protegidas.

Investimento

Segundo Figueres, um problema identificado para o setor de saúde lidar com o aquecimento global no futuro é que grande parte dos investimentos estão comprometidos na “ponta do processo”. Em uma média mundial aproximada, orçamentos de saúde consomem mais de 95% em tratamento e menos de 5% em prevenção. Essa disparidade precisa diminuir, afirma a chefe da Convenção do Clima.

Figueres ressaltou que esforços para mitigação do aquecimento global – a redução de emissão de CO2 e outros gases de efeito estufa – devem ser vistos como um investimento importante também na área de saúde. No futuro, diz, a ação contra a mudança climática vai prevenir gastos com tratamento de problemas de saúde que tendem a ser maiores do que o custo de mitigação.

A maioria dos países, porém, ainda não se deu conta da importância da ligação entre clima e saúde. Segundo a Convenção do Clima, apenas 15% das nações que apresentaram planos de mitigação e adaptação ao aquecimento global incluíram a saúde entre os tópicos a serem trabalhados.