Por que a febre amarela explodiu em 2017

A atual onda de surtos de febre amarela ainda traz mais perguntas do que respostas  (Foto: OMS)
A atual onda de surtos de febre amarela ainda traz mais perguntas do que respostas (Foto: OMS)
Pesquisadores brasileiros ainda tentam entender por qual razão estamos diante da mais grave onda de surtos de febre amarela silvestre na História do país

A febre amarela matou 113 pessoas em 2017, até agora. É a primeira vez que a quantidade de óbitos causados pela doença ultrapassa a marca de uma centena em um único ano – o número foi registrado no Boletim da Secretaria de Vigilância em Saúde do dia 3 de março.

O surto da forma silvestre da doença é o pior já registrado no país desde que a forma urbana foi erradicada, nos anos 1940, e duas perguntas continuam intrigando os especialistas: por que tantos casos em tão pouco tempo? E por que essa concentração em Minas Gerais?

Ainda não há respostas cientificamente comprovadas. Uma hipótese recorrente é a do desmatamento – com seu habitat natural reduzido, as espécies de macaco que hospedam o vírus acabam se aglomerando em espaços menores, intensificando a epizootia, nome dado a epidemias deflagradas em populações de animais não humanos.

Atualmente, Minas Gerais é o estado campeão de desmatamento da Mata Atlântica no Brasil. De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, Minas desmatou 7.702 hectares de florestas entre 2014 e 2015, um aumento de 37% em relação ao período anterior. A atividade mineradora é considerada a grande responsável por esses números.

Outra hipótese para a dimensão extraordinária do novo surto é uma relação com o rompimento da barragem da mineradora Samarco em novembro de 2015. A tragédia, que destruiu o distrito de Bento Rodrigues e matou 19 pessoas, também aniquilou boa parte da fauna e flora às margens do Rio Doce e comprometeu alguns ecossistemas adjacentes.

“Eu não tenho evidências, mas é uma cadeia de pensamento mais ou menos lógica e plausível”, diz Eduardo Massad, epidemiologista da USP. “Os casos de febre amarela são concentrados no Vale do Rio Doce, na fronteira com o Espírito Santo. E o que aconteceu lá?”.

No mapa abaixo é possível visualizar geograficamente como a atual onda de surtos se espalhou pelo Brasil. Clicando no município, surge a informação do status atual do surto na cidade: se na cidade há registros de casos suspeitos ou confirmados da febre amarela.

            Surto de Febre Amarela – Verão 2016-2017

A teoria defendida por Massad pode ser considerada como complementar à hipótese do desmatamento. “Com a perturbação de meio ambiente observada desde a ruptura da barragem, é possível que vários habitats dos macacos tenham sido destruídos. A razão dos surtos é um mistério, mas é fato que alguma coisa saiu da linha natural”, afirma.

De acordo com um relatório feito pela ONG SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o rompimento da barragem desmatou uma área equivalente a 258 campos de futebol.

Há quem ainda especule a possibilidade de uma eventual mutação no vírus, o que teria contribuído para uma ampliação das espécies de macacos contaminados: a atual onda de surtos já vitimou bugios, macacos-prego e muriquis-do-norte, entre outras espécies de primatas.

No gráfico interativo abaixo você confere uma retrospectiva de como a febre amarela vem se comportando no Brasil desde 1980. Ao passar o mouse por cima das barras, você é informado sobre a quantidade de óbitos e casos não letais em cada ano – os dados foram extraídos do boletim atualizado.

  Febre amarela no Brasil: de 1980 até 2017

Outro enigma que intriga a comunidade científica é o fato de a febre amarela urbana ainda não ter ressurgido. Erradicado no Brasil desde 1942, o ciclo urbano é transmitido pelo Aedes aegypti, mesmo vetor da dengue, Zika e chikungunya. O ciclo silvestre, por definição, é disseminado por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, capazes de levar a doença de um macaco a um humano.

A cada três casos de dengue no país em 2016, um foi em Minas, ou seja: a população de Aedes aegypti selvagem no estado está fora de controle. Em teoria, não haveria cenário mais propício para a reintrodução da febre amarela. “Por que isso não aconteceu ainda? É um mistério a se esclarecer”, questiona Massad. Para ele, é “perfeitamente possível” que casos de febre amarela urbana tenham acontecido e que nenhum órgão oficial tenha sido informado. Duvido que não chegue ninguém infectado em Vitória (capital do Espírito Santo). E Vitória tem muito Aedes”.

O epidemiologista acredita que a única hipótese que explicaria o mistério passa por um conceito chamado “competência vetorial”. Talvez o Aedes aegypti que vive no Brasil simplesmente não transmita a febre amarela de maneira tão eficiente quanto transmite a dengue, por exemplo. “Esses valores não são conhecidos com nenhum grau de exatidão”, diz o cientista. É preciso investir em pesquisas que demonstrem a competência vetorial do Aedes aegypti brasileiro para a febre amarela – só então teremos noção do tamanho da ameaça que nos espreita.