Quanto custa uma epidemia de chikungunya?

Saint-Denis, capital da Ilha Reunião (Foto: Wikimedia Commons)
Saint-Denis, capital da Ilha Reunião (Foto: Wikimedia Commons)
A ilha de Reunião perdeu € 43,9 mi com vírus que infectou um terço da população. Em territórios continentais o impacto também tem se mostrado alto

A dor e o mal-estar não são os únicos problemas causados pela dengue, Zika e chikungunya. O prejuízo econômico é também uma questão séria no caso dessas doenças, todas transmitidas pelo Aedes aegypti. A chikungunya é a que mais preocupa em relação a esses dois aspectos. Tanto as dores características da doença quanto o impacto econômico causado por ela são muito profundos.

Os sintomas debilitantes causados pela chikungunya – fortes dores e mal-estar – frequentemente impedem as pessoas de irem ao trabalho. Pessoas infectadas também contribuem para aumentar a demanda por assistência médica, testes sorológicos, remédios e outros serviços cobertos, em geral, pelo setor público.

Mas qual é o tamanho desse impacto? A epidemia de chikungunya é relativamente novo para as ciências econômicas, mas já existe um estudo dando uma resposta inicial a essa pergunta. A partir de um cenário bastante propício – um território isolado geograficamente e tomado por uma epidemia de proporções históricas – especialistas calcularam o impacto financeiro da chikungunya.

Um vírus na ilha

A Ilha de Reunião é um território ultramarino francês localizado ao leste de Madagascar, na África. Entre março de 2005 e abril de 2006, o local passou por uma epidemia avassaladora de chikungunya. Cerca de 266 mil pessoas contraíram a doença – um terço da população do local.

O episódio atraiu o interesse de cientistas da Universidade Pierre et Marie Curie, de Paris, que em 2011 publicaram um estudo na revista “PLoS Neglected Tropical Diseases” estimando o impacto econômico da presença do vírus na ilha[1].

Cinco anos após o fim da epidemia, já era possível analisar o impacto econômico sentido pelos cofres públicos da ilha durante o período. Um dos números mais reveladores é a soma do número de vezes em que cada vítima do vírus teve de faltar ao trabalho: 112.400 dias.

A conta das horas de trabalho perdidas é considerada um custo indireto – no caso da ilha, esse tipo de gasto foi responsável por 40% do impacto econômico total da disseminação da doença. Os outros 60% – os chamados custos diretos – são relacionados à hospitalizações, testes sorológicos (procedimento que detecta a presença de anticorpos contra o vírus no organismo) e reembolsos referentes a compras de remédios e consultas médicas. Somando gastos diretos e indiretos, a conta final foi de € 43,9 milhões (R$ 115 milhões na cotação da época), valor equivalente a 4.206 carros populares nos dias de hoje. Isso sem contar despesas por entes privados – seja de pessoa física ou de seguradoras –, que não entraram no cálculo dos pesquisadores.

Detalhando gastos

Em comparação com um período semelhante, mas sem a presença descontrolada do vírus, durante os 13 meses em que a epidemia se estendeu, 470 mil consultas médicas a mais foram realizadas na ilha. Esse fator foi o responsável pela maior parte dos gastos: € 12, 4 milhões ou 47% do total de despesas diretas.

A chikungunya é conhecida por provocar dores fortíssimas, especialmente nas articulações. Originalmente, a palavra chikungunya quer dizer “aquele que se dobra”, em referência à postura curvada típica de quem está dolorido. Não por acaso, a venda de analgésicos subiu 35% na época, respondendo por 19% dos gastos públicos diretos.

O gráfico abaixo mostra o volume de dinheiro empregado no reembolso de analgésicos na Ilha Reunião em comparação com o que estima-se que seria gasto sem a epidemia.

AEDES-REEMBOLSO_ANALGESICOS-01

Ao final da epidemia, 29.664 testes sorológicos haviam sido realizados a um custo total de € 570 mil (R$ 1,5 milhão). As hospitalizações custaram  € 8,5 milhões (R$ 22 milhões) – 32% dos gastos diretos – e os 12.800 trabalhadores que faltaram mais de 112 mil vezes no trabalho somaram um prejuízo de  € 17, 4 milhões (R$ 45 milhões).

Outros casos

O impacto econômico da chikungunya em Reunião foi extraordinário, em parte, devido às particularidades do local, uma ilha onde a população está concentrada em uma área pequena. Mas pesquisas conduzidas em áreas continentais também indicam um impacto econômico significativo para a chikungunya.

Um estudo publicado pela Universidade Tecnológica de Pereira, na Colômbia, se baseou na epidemia de chikungunya que aconteceu no país em 2014 para fazer um cálculo semelhante[2]. Segundo os pesquisadores, os 106.592 casos da doença notificados no país naquela ocasião representaram um impacto econômico de US$ 73,6 milhões (R$ 190 milhões) para o governo colombiano.

De acordo com o estudo sobre Reunião, “estimar o custo de uma doença pode ser útil para avaliar o a relação entre custo e benefício de programas de monitoramento, prevenção e controle de arboviroses como a chikungunya, seja no contexto de Reunião ou em outras regiões do planeta que estejam vulneráveis ao vírus ou seu vetor.”

Em 2016, o Brasil contabilizou 271.824 casos prováveis de chikungunya, quase sete vezes mais que o número registrado no ano anterior, mas não há ainda literatura científica estimando em detalhes o impacto financeiro do vírus.

Referências:

[1] The Chikungunya Epidemic on La Réunion Island in 2005–2006: A Cost-of-Illness Study – Soumahoro et al. – PLoS Neglected Tropical Diseases 5(6): e1197

[2] Estimating the burden of disease and the economic cost attributable to chikungunya, Colombia, 2014 – Cardona-Ospina et al. – Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene (2015) 109 (12): 793-802