Sim às abelhas, não ao Aedes aegypti

Toda solução que evita o uso de pesticidas está colaborando para a preservação das abelhas, responsáveis pela polinização de vários alimentos consumidos pelo homem  (Foto: Shutterstock)
Toda solução que evita o uso de pesticidas está colaborando para a preservação das abelhas, responsáveis pela polinização de vários alimentos consumidos pelo homem (Foto: Shutterstock)
O uso descontrolado de inseticida mata insetos polinizadores benéficos, mas já existe alternativa, diz um dos maiores especialistas em abelhas do país

Quando um programa de combate a insetos é planejado, seja para eliminar mosquitos transmissores de doenças ou pragas de agricultura, muitas vezes a opção disponível é uma solução drástica, que mata mais de uma espécie de animal. Isso é particularmente preocupante quando as vítimas são as abelhas, insetos que prestam um serviço de alto valor aos humanos: a polinização.

Ao polinizar plantações, abelhas garantem a produtividade de frutos, grãos e outros cultivares. Caso desaparecessem dos EUA, abelhas poderiam causar prejuízos da ordem de US$ 29 bilhões pois esse é o valor do serviço ambiental que elas prestam à agricultura [1]. No Brasil, uma estimativa conservadora do prejuízo que seria causado chega a US$ 12 bilhões [2].

Por essa importância crucial, é do interesse de agricultores que ações de combate a pragas poupem as abelhas, insetos aliados da economia humana. É uma das razões pelas quais, por exemplo, os inseticidas neonicotinoides – comumente usados em plantações de soja, algodão e, sobretudo, milho – foram banidos da Europa e são cada vez mais criticados.

Abelhas mortas em frente à colmeia (Foto: Sem Abelha Sem Alimento)
Abelhas mortas após o uso de inseticidas (Foto: Sem Abelha Sem Alimento)

Neonicotinoides desorientam abelhas, e são apontados como uma das principais causas do colapso de colmeias, mas não são a única classe de inseticidas com potencial de afetar abelhas.

Isso ficou claro com a devastação de colmeias ocorrida no polo apicultor de Summerville, no estado americano da Carolina do Sul, em agosto de 2016. Após uma aplicação de fumacê com o inseticida organofosforado Naled para eliminar focos de Aedes aegypti selvagem, milhões de abelhas morreram – em apenas um apiário, a estimativa chegou a 2,5 milhões de insetos mortos.

É por isso que, no Brasil, onde outro inseticida organofosforado, o Malation, tem sido usado contra o Aedes aegypti, especialistas também estão preocupados com as abelhas. “As abelhas estão desaparecendo. Uma das nossas sugestões é não utilizar pesticidas, ou resolver o problema da praga com produtos menos tóxicos, que não eliminem a abelha – abelha não é praga”, explica ao portal Aedes do Bem™! o biólogo Lionel Segui Gonçalves, professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo) e atualmente na Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido), em Mossoró-RN. O cientista, um dos maiores especialistas em abelhas do país, encabeça hoje a campanha internacional Sem Abelha, Sem Alimento, que busca conscientizar a sociedade para o problema. E completa:  “cerca de 70% das plantas que produzem alimentos para o homem são polinizadas pelas abelhas”.

Prof. Lionel Gonçalves inspecionando colônias em Olímpia-SP (Foto: Sem Abelha Sem Alimento)
Professor Lionel inspecionando colônias em Olímpia-SP (Foto: Sem Abelha Sem Alimento)

Tecnologia para preservar

A campanha foi criada em 2013 com a ideia de chamar atenção para o fato de que as abelhas estão desparecendo por várias causas, inclusive pelos pesticidas.  Para monitorar a extensão do problema da perda de apiários por envenenamento – causada sobretudo pela aplicação de agrotóxicos – a campanha criou um aplicativo. O Bee Alert – que tem a capacidade de reunir as informações das ocorrências em que o apicultor, pesquisador ou leigo – registra a ocorrência do colapso de colmeias.

“Nos últimos três anos, o aplicativo registrou aproximadamente 1 bilhão de abelhas mortas devido a pesticidas”, diz Lionel. “E isso é uma subestimativa daquilo que vem ocorrendo no Brasil.”

Mas não são só as abelhas melíferas que sofrem com problemas ambientais. As abelhas nativas sem ferrão, também cruciais para a polinização, têm sofrido muito no Brasil por causa de desmatamento e, também, uso abusivo de inseticidas.

Segundo estudo de cientistas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e colaboradores, uma possível crise de polinização na agricultura brasileira pode levar a perdas de até US$ 14,5 bilhões ao ano [3].

Para que o fumacê não se torne um problema a mais para as abelhas, é preciso que a política de combate ao Aedes aegypti selvagem seja cuidadosa, afirma Lionel. Para ele, a Oxitec, empresa que criou o Aedes do Bem™!, tem um papel importante nesse futuro, pois seu mosquito geneticamente modificado que combate o Aedes aegypti selvagem afeta apenas essa espécie, sem prejudicar outros tipos de insetos.

“Eu não tenho dúvida de que o problema da dengue, da Zika e da chikungunya é sério e requer um tratamento de choque, mas não está muito claro pra mim que o uso de pesticidas seja a forma mais correta para combater o Aedes aegypti”, afirma o cientista. “O trabalho feito pela Oxitec, utilizando a engenharia genética, é uma solução muito mais inteligente, que faz com que haja um combate ao problema de uma maneira racional e com resultados altamente positivos. A Oxitec está se despontando como uma empresa altamente séria e que está trazendo resultados altamente positivos.”

Referências:

[1] Insect Pollinated Crops, Insect Pollinators and US Agriculture, Calderone et al.PLoS One 7(5): e37235

[2] The Dependence of Crops for Pollinators and the Economic Value of Pollination in Brazil, Giannini et al.Journal of Economic Entomology 108 (3) 849-57

[3] Effects of a Possible Pollinator Crisis on Food Crop Production in Brazil – Novais et al.PLoS One 11(11): e0167292