Tudo o que você precisa saber sobre Mayaro, Usutu e Febre do Nilo Ocidental

Pica nuttalli, a espécie mais atingida pela Febre do Nilo Ocidental nos EUA(Foto: Don DeBold/Wikimedia Commons)
Pica nuttalli, a espécie mais atingida pela Febre do Nilo Ocidental nos EUA(Foto: Don DeBold/Wikimedia Commons)
Virologista fala do passado e do futuro desses vírus que já circulam por vários continentes do planeta

Dengue, Zika e chikungunya. É esse trio de arboviroses – nome dado ao grupo de doenças transmitidas por artrópodes – que o brasileiro se acostumou a encontrar nos noticiários –  mais recentemente, a febre amarela silvestre também entrou na lista. Mas uma legião de vírus transmitidos pelo Aedes aegypti e outros mosquitos já circula pelas Américas e Europa, apenas esperando uma chance para gerar epidemias.

O portal Aedes do Bem! conversou com o virologista Paolo Zanotto do Departamento de Microbiologia do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo) para entender a dimensão da ameaça imposta pelas chamadas arboviroses emergentes. Segundo ele, vale lembrar que, até três anos atrás, a própria Zika e a chikungunya não eram nada mais que “emergentes”.

“Eu trabalho desde 2002 com a Zika e olha só: eu achava que era uma perda de tempo. Pra mim, a Zika era um primo pobre e inofensivo da dengue. É a situação que o cientista se encontra: ele tem uma certa ideia, de repente, vem a realidade e pode mudar isso de forma violenta”, confessa o professor.

Apesar de todos os estudos feitos ao redor do mundo, o fato é que o comportamento desses vírus é, basicamente, imprevisível. Além da sua experiência de ter “subestimado” o Zika, Zanotto lembra outro exemplo de vírus que ganhou uma notoriedade que não estava no roteiro.

A dengue era uma doença relativamente benigna até meados do século XX”. O fator novo se deu em meados dos anos 1940, quando os diferentes sorotipos do vírus começaram a cocircular. “Em função da grande movimentação que aconteceu no Pacífico durante a II Guerra Mundial , os quatro sorotipos da dengue não tinham mais uma região definida pra cada um”. A partir daí, começaram as manifestações que não eram previsíveis, como a febre hemorrágica e a síndrome de choque.

Como resume o virologista, “o comportamento de cada vírus é surpreendente”.

Hoje, a lista de arboviroses emergentes conta com nomes que ainda soam estranhos aos ouvidos brasileiros: Mayaro, Usutu, e Febre do Nilo Ocidental.

Confira abaixo um breve panorama de cada uma dessas doenças:

Mayaro

O vírus da doença foi isolado pela primeira vez em 1954 na ilha de Trinidad, na América Central. Nessa ilha há uma cidade chamada Mayaro, daí o nome. Os sintomas de quem contrai o vírus são idênticos aos da chikungunya: febre alta e fortes dores nas articulações que podem se estender por vários meses.

Para Zanotto, “é uma possibilidade que o Mayaro esteja se espalhando pelo Brasil inteiro”. O problema seria justamente a semelhança entre as suas manifestações e as da chikungunya. Não existem sistemas de detecção e diagnósticos bem difundidos. A nível clínico, você vai confundir o Mayaro com a chikunugnya ou com a dengue. Da mesma maneira que a gente teve o Zika circulando ‘escondido’ embaixo de dengue, isso pode estar acontecendo com o Mayaro e outros vírus no Brasil”.

Entre o início de 2015 e março de 2016, o estado de Goiás passou por um surto da doença –cerca de 70 pessoas foram contaminadas nesse período.  Em 2016, cinco pessoas residentes no estado do Amazonas foram diagnosticadas com Mayaro. Pesquisas recentes indicam que o Aedes aegypti é um dos transmissores em potencial da doença.

Apesar da semelhança entre os sintomas, essa proximidade não se reflete na facilidade do vírus em se espalhar. Ou seja: não é porque chikungunya e Mayaro apresentam quadros clínicos praticamente idênticos que o Mayaro se adaptará tão bem ao Brasil quanto a chikununugya já se mostrou capaz. “Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que a gente precisa entender bem é qual a competência dos Aedes que circulam nas regiões urbanas para transmitir o Mayaro”, afirma Zanotto.

Febre do Nilo Ocidental

Isolado pela primeira vez em 1937, em uma região do Norte de Uganda chamada West Nile (em português, Nilo Ocidental), os cientistas apostam na hipótese que o vírus saiu da África pela primeira vez de carona com aves migratórias que fazem o trajeto entre a costa oeste africana e a península ibérica.

No verão de 1999, o vírus foi detectado em Nova York, matando sete pessoas. O que aconteceu entre esse primeiro episódio e o ano de 2015 foi grave: 43.937 pessoas contaminadas e 1.911 vítimas fatais  – isso sem contar os incontáveis animais silvestres e domésticos, como cachorros, cavalos e aligátores. “Foi um problema gigantesco”, resume Zanotto.

Da Europa para os EUA, o meio de transporte é mais incerto. “São várias opções, inclusive com envolvimento humano. Pode ter sido ovos em containeres ou uma pessoa infectada”, conta o professor.

Apesar do Culex ser apontado como principal responsável pela circulação do vírus durante a série de surtos nos EUA, o Aedes aegypti também é um vetor em potencial.  

Em até 80% dos casos, quem contrai a doença não desenvolve nenhum tipo de sintoma. Os outros 20% irão desenvolver um quadro de febre, dores pelo corpo, vômitos e diarreia. A recuperação é quase certa, mas a sensação de cansaço pode durar por semanas ou até meses.

Menos de 1% das pessoas infectadas com o vírus são acometidas por algum tipo de doença neurológica potencialmente fatal, como a encefalite e a meningite.

Para Zanotto, a febre do Nilo Ocidental já é uma ameaça em potencial para o Brasil. “É até curioso ele não ter causado uma bagunça enorme aqui ainda”, afirma.

Usutu

Identificado pela primeira vez na África do Sul, em 1959, seu nome vem de um dos principais rios do pequeno país africano da Suazilândia. “Os vírus desse grupo têm uma facilidade para se adaptar em aves. Na natureza, os pássaros selvagens acabam sendo o reservatório e o meio de espalhamento do vírus”, diz Zanotto.

Esses pássaros são sentinelas, atuando como, por exemplo, o macaco-prego em um surto de febre amarela silvestre: a morte desses animais por conta desse determinado vírus é um alerta para os humanos de que o Usutu está por perto.

O primeiro registro da circulação do Usutu na Europa aconteceu em 2001, após uma grande quantidade de melros aparecerem mortos na Áustria. “É um vírus identificado praticamente apenas em animais”, explica o professor. Em 2009 aconteceram os dois primeiros casos em humanos no continente europeu, causando encefalite em dois pacientes italianos.

Além da encefalite – condição em que o cérebro fica inflamado e inchado – os sintomas do vírus incluem febre e erupções na pele. Ainda não foram identificados casos da doença em território brasileiro.

Sobre o papel do Aedes aegypti na circulação do vírus, Zanotto diz que “isso é uma coisa que a gente precisa entender melhor”. Por ora, é certo que a doença é transmitida principalmente pelo culexo popular pernilongo. De acordo com o European Centre for Disease Prevention and Control, o “vírus do Usutu foi isolado do Aedes albopictus, mas ainda não se sabe se o mosquito pode transmitir esse patógeno”.