Crítica do Bem

Silvia no jardim de sua casa: satisfação pessoal e profissional ao ver o sucesso do Aedes do Bem! (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
A ecóloga e professora universitária Silvia Gobbo conta como a proposta de liberação de um mosquito geneticamente modificado passou pelo crivo dos ambientalistas em Piracicaba

Professora na Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), a ecóloga Silvia Gobbo mora no Cidade Jardim, um dos bairros da cidade onde o Aedes do Bem! será liberado em breve. O mosquito geneticamente modificado que combate o Aedes aegypti selvagem chegou à região central da cidade depois do sucesso do projeto na região do CECAP/Eldorado, onde a redução das larvas selvagens do Aedes aegypti chegou a 82% — um  número tão significativo que é até “absurdo”, nas palavras dela. Silvia testemunhou como o projeto passou pelo crivo rigoroso da comunidade ambientalista da cidade.

“Tradicionalmente, Piracicaba é uma cidade em que os ambientalistas são muito ativos e muito capacitados tecnicamente”, conta Silvia. “Tudo que poderia haver de crítica, correta ou não, apareceu, tudo que poderia haver de militância ambiental também apareceu. Todo o processo foi muito claro, foi uma experiência muito interessante.”

A professora, defensora do projeto, se diz satisfeita pelo debate ter tomado um caminho positivo, que levou a uma aceitação da tecnologia para controle do transmissor da dengue, Zika e chikungunya  e à expansão do projeto.

“Fico contente que a gente tenha essa tecnologia no bairro, porque eu sei que vai causar uma redução drástica no numero de casos [de dengue, Zika e chikungunya]”, diz. “É legal mostrar que funciona em um bairro. Mas é muito mais legal mostrar que funciona em uma área de maior densidade. Piracicaba já não é uma cidade pequena. 390 mil habitantes é um tamanho comparável ao de algumas capitais europeias.”

O Aedes do Bem! é muito mais seguro do que trabalhar com pesticida

Durante o processo de debate sobre o uso da tecnologia, Silvia ajudou a explicar para a comunidade local que o combate ao Aedes do Bem! não oferecia riscos para biodiversidade. “O Aedes aegypti não é natural do Brasil e pode ser exterminado sem problema nenhum. Ele não faz parte da cadeia alimentar, por exemplo”.

Como moradora de Piracicaba, a professora também defende a busca de novas tecnologias para controle do mosquito. “O Aedes aegypti tem sido um problema aqui no bairro. A gente percebe que há sim uma infestação”, diz Silvia, contando que já ficou com dores articulares por oito meses por causa da dengue.

Uma das principais vantagens do Aedes do Bem!, segundo a ecóloga, é que ele vai até onde as outras ferramentas não vão. “O Aedes do Bem! busca copular com as fêmeas do mosquito selvagem onde elas estiverem, não importa o local.”.

Controle biológico

Nos vários debates públicos que antecederam a implantação do Aedes do Bem! em Piracicaba, Silvia foi uma das principais vozes que ajudaram a esclarecer o que é o chamado “mosquito do Bem”. Ela conta que muitos argumentos usados contra os mosquitos geneticamente modificados eram informações disseminadas sem respaldo científico.

Se alguém dizia que os mosquitos transgênicos poderiam picar os moradores, por exemplo, a professora logo explicava que todo Aedes do Bem! é macho, e machos não picam (apenas as fêmeas se alimentam de sangue humano, pois precisam dele para desenvolver seus ovos).

Segundo Silvia, é equivocado imaginar que o apoio à biotecnologia e que uma postura ambientalista são coisas conflitantes – o uso do Aedes do Bem! no combate a mosquitos que transmitem doenças é um exemplo disso. “É muito mais seguro do que trabalhar com pesticida, que, além de ser um produto tóxico, afeta a saúde dos outros animais e pode acabar com polinizadores importantes pra agricultura”, diz a professora. “Eu prefiro o Aedes transgênico, porque ele é um controle biológico de pragas, uma maneira natural de controlar o Aedes aegypti sem precisar usar o pesticida”.

A professora também viu no projeto a possibilidade de mostrar para seus alunos que a pesquisa em biologia não é uma atividade confinada ao ambiente acadêmico. “A gente pode ver como a biologia funciona na prática, trabalhar um pouquinho a questão de como o biólogo está inserido na sociedade”, explica. Lecionando na UNIMEP, a ecóloga tem à sua porta um exemplo interessante de aplicação da ciência. O campus da universidade está apenas há alguns passos do CECAP/Eldorado, o bairro onde o Aedes do Bem! foi liberado pela primeira vez em Piracicaba.