Comunicação interna

Lúcia, Carminha e Madleine, com uma gaiola de mosquitos Aedes do Bem! (Crédito: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Como é o trabalho das agentes comunitárias de saúde que fazem a ponte entre a população e o Aedes do Bem!

Menos de um ano depois de a Oxitec começar a liberar em Piracicaba o Aedes do Bem! — o mosquito geneticamente modificado que combate o Aedes aegypti selvagem — resultados já começaram a aparecer. Houve uma redução de 82% da população de larvas selvagens do inseto transmissor da dengue, Zika e chikungunya no bairro do CECAP/Eldorado, onde o projeto está sendo realizado. Esse número imponente foi atingido graças também ao apoio da população do local. Nele, 96% dos moradores já apoiavam o projeto antes de o Aedes do Bem! começar a ser liberado.

O trabalho de conscientização foi fundamental para que a população do bairro reconhecesse as qualidades do Aedes do Bem ! Ele teve a presença intensa de técnicos da Oxitec no bairro e contou com a coordenação e parceria fundamental das agentes comunitárias de saúde, profissionais que diariamente visitam a vizinhança, indo de portão em portão conversar com os moradores para ajudar a cuidar da saúde das pessoas. No caso do Aedes do Bem, essas agentes incorporaram à sua rotina explicar o projeto de combate ao mosquito transmissor da dengue, Zika e chikungunua que estava prestes a fazer parte da rotina do bairro, o Projeto Aedes do Bem !.

Os Aedes do Bem ! começaram a ser liberados no final de abril de 2015, mas durante todo o mês de  março e de abril, as agentes, munidas de uma prancheta e muita disposição, visitavam “mais ou menos 20 casas por dia” para falar também do Aedes do Bem !, como lembra Maria do Carmo Tunussi, a Carminha, uma das profissionais envolvidas no processo. “Mais ou menos porque tinha dia que você achava pessoas que queriam conversar mais, perguntar mais”, explica. Além da prancheta e da boa vontade, o outro instrumento de trabalho da equipe era uma gaiola com tela de malha fina contendo cerca de dois mil Aedes do Bem!. O aparato era usado para mostrar pra população que os Aedes do Bem eram mosquitos machos e não picavam. Quem quisesse, poderia colocar a mão dentro da gaiola por meio de uma abertura, para ver que os insetos eram inofensivos. “Essa gaiola foi trazendo a população mais pra perto e eles aceitaram bem”, conta Lúcia de Camargo Del Nery, outra agente do bairro.

Carminha e Dona Ester: relação de afeto e confiança (Crédito: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Carminha e Dona Ester: relação de afeto e confiança (Crédito: Alexandre Carvalho/Divulgação)

Por frequentarem diariamente a região do CECAP/Eldorado, as agentes acabaram cultivando suas próprias relações individuais com o Aedes aegypti e as doenças que ele transmite.  Antes de as agentes começarem a ir pras ruas, reuniram-se para entender a tecnologia e apresentaram o projeto a lideranças comunitárias, como comerciantes, o padre, o pastor. Uma delas, porém, enfrentou um problema especial durante o treinamento.

“Eu não participei dessas reuniões por estar com dengue”, conta Madleine. “Eu lembro que eu não comia, não queria nada. Minha filha falava ‘mãe, o que a senhora quer?’ e eu respondia: ‘quero que soltem logo esse Aedes do Bem!”. Com a ajuda das colegas ela se inteirou das discussões e começou a ajudar no trabalho de engajamento.

A lógica com a qual as agentes tiveram de trabalhar foi a de  que, do ponto de vista do morador do bairro, o Aedes do Bem! era uma novidade, algo completamente desconhecido. A empresa que o produz queria mostrar como a tecnologia podia melhorar a vida das pessoas, mas a empresa também era desconhecida pra eles.  “A Oxitec era um fator novo na cidade, mas os agentes comunitários não. Esse trabalho foi importante porque o agente de saúde comunitário mora no bairro, as pessoas conhecem e têm confiança neles”, explica o secretário de Saúde de Piracicaba, Pedro Mello, um dos principais responsáveis por levar o Aedes do Bem! à cidade.

Basta dar uma volta com as agentes pelo bairro pra entender do que Mello está falando. Carminha toca a campainha de uma casa e dá um beijo e um abraço na senhora que abre a porta. “Como você está, Dona Ester? E o cachorro? Ó, fica tranquila que a gente visitou a casa do seu vizinho e lá está sem criadouro também”.  Dona Ester também chama Carminha pelo nome e fica claro que ali há uma relação que não se constrói do dia pra noite.

As três agentes que conversaram com o portal Aedes do Bem! deixam transparecer o prazer que têm na função que exercem. Suas personalidades se complementam: Carminha é a mais extrovertida, Lúcia a mais discreta e Madleine, apesar de mais tímida, é responsável pelo departamento de boas histórias.  “Tem uma moradora minha que fala que levanta todo dia de manhã e abre as portas e janelas da casa pros mosquitos entrarem e procurarem as fêmeas lá dentro”, conta.

Segundo a Secretaria de Saúde de Piracicaba, entre o inverno de 2014 e o outono de 2015, o CECAP/Eldorado, região em que as agentes atuam registrou 132 casos de dengue. No período seguinte, entre 5 de julho de 2015 e maio de 2016, depois que os Aedes do Bem! começaram a ser liberados, a área documentou 6 casos da doença segundo dados da Prefeitura. Para Carminha isso significa que elas estão “Bem:” “Aqui nós estamos tranquilos”. Lúcia concorda: “É um privilégio.”.