Fé na biotecnologia

O padre destaca a importância do Aedes do Bem ter começado por um bairro pobre (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação
Para o padre João Quaresma, o Aedes do Bem! é uma "possibilidade que a ciência oferece para o bem-estar da população"

O bairro do CECAP/Eldorado, uma comunidade de cerca de 6.000 pessoas em Piracicaba, é uma área isolada do núcleo urbano da cidade, onde a presença de igrejas tem um papel social importante. Antes de o Aedes do Bem! ser liberado na região que fica a 8 km do centro do município, o padre João Quaresma foi convidado a se sentar com cientistas da Oxitec e agentes comunitárias de saúde. O encontro aconteceu no início de 2015 e serviu para que o líder religioso conhecesse o projeto que pretendia reduzir a população do mosquito transmissor da dengue, Zika e chikungunya na sua paróquia. Um ano depois – e com 82% a menos de larvas de mosquitos selvagens nas ruas e casas do CECAP/Eldorado – o padre diz ter fé na tecnologia dos mosquitos geneticamente modificados. Confira o seu depoimento.

O padre em frente a sua casa no CECAP (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação
O padre em frente a sua casa no CECAP (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)

“Eu morei no Amazonas e tive malária cinco vezes. Voltei para o estado de São Paulo porque tive uma fissura no fígado. Lá no Amazonas tudo é o mosquito: entre cinco da tarde e sete da noite você não vê ninguém pescando, nada. Todo mundo fecha a casa, queima pano, queima estrume de vaca pra espantar o mosquito.

Dengue é a doença da falta de higiene. Não tem como. A população tem que ter consciência. Tanto que, quando o Guilherme [Trivellato, supervisor de produção e ensaios de campo da Oxitec] veio conversar comigo, ele dizia ‘mas por onde a gente começa?’ e eu respondia: ‘na escola’. É com as crianças que você cultiva aquilo que nós podemos e devemos promover em face da saúde pública.

O Aedes do Bem deveria estar na cidade toda, porque a maioria do povo daqui trabalha fora do bairro, tem esse vai e vem. Eu duvido que alguma criança tenha pego dengue aqui no CECAP/Eldorado. A criança raramente sai do bairro. Eu creio que esse trabalho de um ano feito pelo Aedes do Bem é bem proveitoso. O que a Oxitec está fazendo é uma atividade preventiva. E o mundo inteiro caminha pra isso: prevenção.

A questão da técnica é importante, a ciência é isso. Não tem comprovação 100% – eu falo que 100% é milagre de Deus. A ciência é de 90% pra cima. O 100% ninguém garante. A tecnologia avança dessa forma. A educação é lenta.

A minha impressão sobre o projeto é positiva. São as possibilidades que a ciência oferece para o bem-estar da população. É uma contribuição da ciência. A Oxitec oferece a solução, agora as condições de tratamento e a vontade de se curar dependem de nós. Aliás, a gente tem que destacar o mérito do projeto por ter começado em um bairro pobre.”