Maternidade em tempos de Aedes aegypti

Médicas e mães são unânimes em uma coisa: é preciso cuidado, mas sem pânico (Foto: Shutterstock)
Médicas e mães são unânimes em uma coisa: é preciso cuidado, mas sem pânico (Foto: Shutterstock)
O que mães e médicas têm a dizer sobre os desafios que envolvem a proteção contra Zika, dengue e chikungunya desde a gravidez até os primeiros anos de vida da criança

A relação entre Zika e problemas de desenvolvimento neural começou a ser notada quando alguns médicos nordestinos perceberam que a concentração de recém-nascidos microcéfalos em áreas de alta incidência de Zika ia muito além da mera coincidência. Isso foi em setembro de 2015. Em dezembro, Rachel Patrício soube que estava grávida.

“Eu fiquei com medo, né?”, conta a paulistana de 32 anos de idade.  “Não cheguei a ficar paranoica, mas é uma coisa assustadora. Eu tentei não pirar muito”.

Rachel tinha a sorte de morar em um lugar pouco afetado pelo problema. Ela passou os noves meses de sua gestação em São Caetano do Sul (SP), cidade onde vive e trabalha em seu estúdio de tatuagem. Segundo o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa) de 2015, a população do mosquito do município em 2015 era “satisfatória” – o que significa que menos de 1% dos domicílios da cidade estavam infestados com o transmissor da dengue, Zika e chikungunya.

Em 9 de agosto de 2016, seu filho Raul nasceu saudável. “Eu já tinha pra mim que, se qualquer coisa acontecesse, eu ia abraçar essa história até o fim. Mas eu sei que isso é uma questão de privilégio – eu tenho condições de criar essa criança com tudo que ela precisa”, diz.

A obstetra Joelma Queiroz de Andrade, que há 20 anos trabalha com medicina fetal no Hospital das Clínicas, em São Paulo, diz que o avanço da Zika mudou o comportamento das gestantes. “Hoje elas fazem perguntas que não faziam antigamente. Mas eu não apavoro as grávidas. A televisão já deixa as coitadas malucas”, afirma.

Em geral, o que as gestantes mais buscam são dicas práticas de proteção e prevenção. “Tem que fazer o pré-natal direitinho, evitar as áreas de maior risco, sempre usar roupas de manga comprida, calça, usar telas de proteção, dormir com a janela fechada. E usar sempre repelente”.

A tabela abaixo resume as orientações sobre o uso correto dos repelentes de acordo com a faixa etária da criança.

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A curitibana Renata Kovalczyk estava grávida de 8 meses da pequena Valentina quando conversou com o portal Aedes do Bem™! pelo telefone. Seguindo a recomendação médica, durante a gestação, a designer de 32 anos evitou ir para o litoral paranaense, região que sofre com os problemas de uma população descontrolada de Aedes aegypti selvagem. “Minha sogra tem uma casa na praia, em Matinhos, mas eu evitei ir pra lá. Estava com receio”, lembra.

Para Anna Dominguez, pediatra do hospital Albert Einstein, em São Paulo, é impossível separar os cuidados com o recém-nascido das ações de combate ao criadouro do Aedes aegypti selvagem. “O mosquito da dengue se cria dentro da nossa casa. A melhor proteção contra ele é a prevenção”.

Nesse contexto, uma dica interessante é transformar a eliminação de criadouros em uma gincana familiar. “Com meus dois filhos mais velhos, acaba virando brincadeira. Como na escola falam muito sobre isso, eles chegam em casa com vontade de ajudar”, diz Rachel.

 (Foto: Facebook)
Rachel Patrício e o pequeno Raul: gravidez tranquila em meio ao caos (Foto: Facebook)

Afinal, o que é a microcefalia?

“A gente fala pra gestante: a gente não sabe o que seu filho vai ter”, conta Joelma, obstetra, sobre as principais sequelas com a qual um bebê terá de conviver durante sua vida. “Vai depender dos estímulos que ele vai ter nos primeiros meses”. Alteração visual e auditiva, dificuldade de andar e de falar são os sintomas mais comuns.

As sequelas listadas pela obstetra são fruto da atuação do vírus no cérebro do feto em desenvolvimento: o sistema nervoso não é formado adequadamente e se calcifica, prejudicando o contorno craniano e o desenvolvimento cerebral.

O filho de uma mãe com Zika corre um risco duplo: além da microcefalia, ele pode já nascer com a Zika – a ciência já sabe que o vírus pode ser transmitido através da placenta.  “Os efeitos da Zika no feto são mais fortes porque é um organismo em formação, ainda não tem defesa”, diz Joelma. A ausência de anticorpos e células que lutam contra microorganismos nessa fase da vida torna o bebê muito mais frágil que os adultos, aumentando a chance do quadro evoluir negativamente.  “A possibilidade de apresentar inúmeras sequelas é maior”, explica Anna.

Em parto natural, aumenta a probabilidade de a Zika ser transmitida durante o nascimento. “Seria pelo sangue ou pela secreção vaginal, não se sabe”, conta Joelma.

Em um primeiro momento, os médicos acreditavam que contaminação acontecia principalmente no primeiro e no segundo semestre da gestação, mas casos de transmissão no terceiro semestre já foram relatados. Em resumo: “é bom tomar cuidado a gravidez inteira”, alerta a obstetra. “Mas sem pânico”.

Dengue, chikungunya e outras dúvidas

Entre as futuras e atuais mães, uma outra dúvida paira: a microcefalia pode ser adquirida pelo bebê depois que ele nasce? A resposta é não. “A microcefalia ocorre quando a infecção se dá na gestante e afeta o desenvolvimento do cérebro intraútero”, explica Anna.

Se os perigos da Zika para o feto já foram amplamente divulgados, os da dengue e da chikungunya permanecem deixados de lado. Os pesquisadores ainda não têm respostas definitivas mas, segundo Joelma, alguns indícios apontam que chikungunya também pode passar da mãe para o feto. Em relação a dengue, não se sabe, mas o fato é que contrair a doença durante a gravidez pode trazer diversos problemas para a mãe: febre, anemia, vômitos e alterações no sangue e no fígado. Além disso, pode ocorrer um parto prematuro ou mesmo o aborto.

Um dos traços mais angustiantes da relação Zika-microcefalia talvez seja justamente a falta de certezas. “Tem muito mais coisa que a gente não sabe do que coisa que a gente sabe”, sentencia Joelma. “Não sabemos o que leva alguns fetos a terem uma alteração maior no sistema nervoso do que outros. Não sabemos se a imunidade da grávida é definitiva, não sabemos a taxa de transmissão, quer dizer: se dez gestantes estão infectadas, quantas passarão o vírus para o filho?”

Gravidez longe de casa

Thais Teixeira é moradora de Piracicaba, no interior de São Paulo. Durante sua gravidez, ela passava os dias na casa da mãe ou da avó, no CECAP/Eldorado, bairro vizinho ao seu. O motivo? Ao contrário do bairro em que morava, o CECAP/Eldorado estava sendo tratado com o Aedes do Bem™!, mosquito geneticamente modificado que combate o transmissor da dengue, Zika e chikungunya.

“O que me levou a fazer isso foi o medo. No meu bairro tinha muito mosquito, então eu ficava com dor de cabeça de tanto repelente. No calor, eu ficava coberta, de meia, blusa de frio. Na casa da minha mãe é supertranquilo”, revelou em entrevista ao portal Aedes do Bem™!  quando ainda estava grávida. Poucos meses depois, seu filho Théo nasceria saudável em Piracicaba.

Quando Renata e Rachel ficaram sabendo da história de Thais, não hesitaram: teriam feito a mesma coisa. “Se tivesse essa oportunidade, eu mudaria de bairro com certeza”, garante Rachel. “É melhor pecar pelo excesso. Eu teria feito a mesma coisa no lugar dela. Tudo pela segurança. Tudo pela saúde”, finaliza Renata.

por João Bourroul