A fã do “bençoadinho”

Lizete sorri ao lembrar as histórias do "bençoadinho" (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Para o bem da vizinhança, o que Dona Lizete mais quer é vender menos Gatorade

Quando o bairro do CECAP tem um surto de dengue, Lizete é uma das primeiras a ficar sabendo. Ela não é médica nem agente de saúde: os casos de dengue são medidos por ela pela quantidade de bebidas isotônicas que vende, destinadas a doentes que precisam se hidratar. Lizete é dona de um mercado na Rua João Batista Camargo Mendes. “Chamam de mercadinho Primícias, mas bota aí supermercado, que é mais chique”, explica.

Lizete Monteiro dos Santos mora com o marido e as duas filhas no mesmo terreno do supermercado. A família vive lá há 33 anos, e histórias de vizinhos e amigos com dengue não são novidade. “Você ficava sabendo de casas de conhecidos que tinham mais de uma pessoa com dengue”, lembra Lizete. Depois de tantos anos com a doença incorporada à rotina do bairro, porém, ouvir falar de alguém que contraiu a dengue agora é uma raridade. “Quem já teve dengue na família gosta do Aedes do Bem, porque sabe que essa doença é um sofrimento. Quem tem uma dengue forte, a primeira coisa que pensa é que vai morrer”.

Lizete em mais um dia de trabalho em seu supermercado (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Lizete em mais um dia de trabalho em seu supermercado (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)

Para Lizete, o começo das liberações do Aedes do Bem! causou estranhamento em algumas pessoas, mas essa desconfiança foi vencida rapidamente. “As pessoas reclamam do ‘bençoadinho’, mas, de qualquer forma, gostam porque nosso bairro está protegido”, ela conta. No começo a gente ficava preocupado, porque é muito mosquito mesmo. Mas agora a gente já sabe o automóvel que vem. A gente até fala ‘lá vem o abençoado!’”.

Abençoado, ou simplesmente ‘bençoadinho’ é o apelido que a família de Lizete deu ao Aedes do Bem!. Quando questionada sobre o que levou as pessoas a vencerem a desconfiança, ela diz sem titubear: “É porque a dengue sumiu, né?”.

Ao lado de um dos caixas do supermercado, embaixo de uma escada, está uma das armadilhas para capturar insetos adultos que a Oxitec mantém para monitorar os mosquitos. Lizete se entusiasmou quando os funcionários da empresa perguntaram se poderiam colocar o dispositivo dentro da sua loja. “Se eu fui escolhida, tenho só que agradecer”. Segundo ela, a pessoa tem que ser “muito ruim e fraca de mente pra não gostar de um negócio desses”. A dona do supermercado Primícias conta que a redução da dengue no CECAP pode ser percebida até pelo tipo de produto que vende. “O pessoal quando está com dengue, compra muito Gatorade, suco, polvilho, biscoito de água e sal. Quando vende menos Gatorade é porque tem menos dengue – pode ver que eu vivo com o Gatorade na oferta, vai lá ver”.