Vizinhança pioneira

Esperando na janela: Carlos e Dolores posam em frente a varanda da casa que moram há mais de três décadas (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Carlos e Dolores se definem como parceiros do Aedes do Bem!: "Agora na região aqui ó, sem dengue, sem problema"

É em uma esquina arborizada do CECAP/Eldorado que o casal Carlos e Dolores mora há 35 anos. “Já posso pedir usucapião” brinca seu Carlos, apontando para o pequeno jardim que se estende como um quintal pra fora dos limites de sua casa. Apesar de o espaço pertencer à Prefeitura, é ele quem cuida das plantas desde que se mudou. Bairrista no melhor sentido da palavra (é o tipo de pessoa que conhece o bairro rua por rua), Seu Carlos ficou curioso quando disseram que mosquitos começariam ser liberados pelas ruas da vizinhança. Ao receber uma explicação do projeto, gostou da ideia, tanto que cede um cantinho da sua sala de televisão para a instalação de uma armadilha para captura de adultos visando monitorar a população de mosquitos da área. Com direito a café passado na hora e água gelada pra rebater o calor do meio dia de uma sexta-feira piracicabana, o casal recebeu o portal Aedes do Bem! na varanda de sua casa para uma conversa. Veja como foi:

O que passou na cabeça de vocês quando as agentes comunitárias de saúde bateram na porta da sua casa e falaram que o Aedes do Bem! seria liberado nas ruas do bairro?

Carlos: Para nós foi uma surpresa. A gente não sabia de nada, só sabia que a situação estava crítica, com bastante caso de dengue aqui na região. Daí passaram avisando que iam soltar os mosquitos e depois chegaram e pediram pra colocar uma armadilha de mosquito. Eu falei ‘pode por’. Era pra ficar um mês só, mas foi dando certo e ficou um ano. A gente colabora da melhor maneira possível.

E qual a relação de vocês com a armadilha? Tem que fazer alguma coisa ou é só deixar ela ali no cantinho?

Carlos: Não precisa fazer nada, eles [os funcionários da Oxitec] que mexem. A única coisa que a gente faz é, se acabar a energia, colocar um livro em cima pra que o mosquito que está preso ali na armadilha não saia, porque é um exaustor que puxa o mosquito pra baixo e deixa ele colado na tela. Se por acaso exaustor parar, ele vai sair, por isso a gente coloca o livro. Só esse cuidado que a gente toma.

E o começo da liberação dos mosquitos? Vocês estranharam a nova rotina no começo?

Carlos: Estranho eu não achei. Eu achei que era bom e torci pra que desse certo – e no fim deu. Sempre tem aquela pessoa contrária, aquele cara que gosta de meter o dedo: ‘não, não pode, vamos analisar’. Meu Deus do Céu! É pra acabar com isso, eles que soltem o mosquito. Depois de alguns dias ele está morto, acabou. Daí liberaram, soltaram, foi bom. Aqui na região já não tem mais dengue. Foi bom pra caramba.

Alguém da família de vocês teve dengue?

Dolores: A Viviane, minha filha, teve dengue. Acho que foi em 2014… Um pouquinho antes de soltarem os mosquitos.

Carlos: A minha neta estava com suspeita de dengue, zika, essas coisas. Ela sai por aí com as amigas delas, mas eu tenho certeza que por aqui não foi. Se ela pegou alguma coisa, tenho certeza que aqui no bairro é que não foi.

A Secretaria de Saúde de Piracicaba afirma que no período 2014/2015, o CECAP/Eldorado teve 132 casos de dengue. Agora, faltando três meses para acabar o novo período, foram registrados apenas 6 casos. Antes disso era comum ouvir sobre de dengue aqui no CECAP/Eldorado?

Carlos: Era um problema. E começou a ficar meio assim, sabe, sem controle. Todo dia o Pronto Socorro ficava cheio de gente pra fazer exame. Agora na região aqui ó, sem dengue, sem problema. Eu sou parceiro do Aedes do Bem, tudo que é do bem eu sou parceiro.

Quando vocês encontram pessoas de outros bairros de Piracicaba, o Aedes do Bem! aparece nas conversas?

Carlos: O pessoal pergunta: ‘funciona? Funcionou? Eu digo: ‘funciona, claro que funciona!’. Tanto é que vão soltar em toda Piracicaba, na área central. Esses dias o pessoal ficou até comentando, porque soltaram uns mosquitos coloridos pra diferenciar quem é quem. Ficou até bonitinho. Você senta no sofá e vê aquele monte. Dá vontade de pegar o inseticida, mas tenho dó. Você acredita que dá dó?

Dolores: Que coisa, né? Eu tenho dó de matar, você acredita? É porque é do Bem. Se ele está aqui pra ajudar, pra conter a dengue…pra que matar o coitado? Se fosse uma coisa ruim não iam soltar, né? É uma coisa que está dando certo. Nosso bairro foi premiado.