Dengue, Zika e chikungunya podem somar mais de 7 milhões de casos em 2016

O controle do mosquito e a eliminação de criadouros como esse pneu ainda é a raiz do problema (Foto: Shutterstock)
O epidemiologista Eduardo Massad, da USP, fala sobre o futuro das epidemias causadas pelo Aedes aegypti

O boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde sobre dengue, Zika e chikungunya contabiliza 1,88 milhão de casos dessas três arboviroses em 2016. Como os dados só consideram números até setembro, é possível que agora o país já tenha ultrapassado os 2 milhões de casos registrados. E, pelo que epidemiologistas estimam sobre subnotificação – casos desconhecidos –, o número de casos reais pode já ultrapassar os 7 milhões.

É sob essa cifra alarmante que o Brasil promove hoje, 25 de novembro, o Dia Nacional de Combate ao Aedes aegypti, data escolhida pelo Governo Federal para destacar a importância da conscientização pública na luta contra o Aedes aegypti, mosquito transmissor dessas três arboviroses.

De 3 de janeiro de 2016 a 17 de setembro, foram notificados 1.438.624 casos prováveis de dengue, 236.287 de chikungunya e 200.465 de Zika.  Ao longo de 2015 foram registrados 1.649.008 ocorrências prováveis de dengue e 38.332 de chikungunya – não há números oficiais sobre a quantidade de casos de Zika no ano passado (vale lembrar que a transmissão autóctone desse vírus no Brasil só foi confirmada em abril de 2015). Veja no mapa abaixo.

O portal Aedes do Bem™! conversou com Eduardo Massad, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), para entender o que os dados do último boletim epidemiológico significam na prática. Massad é pesquisador na área de modelos matemáticos em doenças transmissíveis – seu trabalho consiste em interpretar em números o avanço de doenças como a dengue, a Zika e a chikungunya.

Eu diria que a cidade de São Paulo é a bola da vez [para a Zika] – aqui temos 20 milhões de pessoas suscetíveis

“Essas três doenças vieram pra ficar. É isso que o boletim está dizendo”, diz Massad. Ele explica como chegou à estimativa de mais de 7 milhões de casos para as três doenças. Cada caso notificado de Zika esconde cinco casos em que ele não foi registrado oficialmente. Com a dengue e a chikungunya, o cálculo é de 4 pra 1 – fazendo uma conta aproximada, temos  mais de 5,5 milhões de pessoas infectadas com dengue,  cerca de um milhão com Zika e mais um milhão com chikungunya. “O sentimento é de pessimismo”, resume Massad.

Nova praga urbana

Para o professor, o que mais chama atenção é a nova distribuição do Zika. “Em 2015, o vírus predominava no Nordeste. Agora ele está se espalhando para o sul.” Cálculos indicam até a velocidade com que a doença percorre o mapa brasileiro: 75 km/mês em direção às regiões  Centro-Oeste, Sudeste e Sul. “Eu diria que a cidade de São Paulo é a bola da vez – aqui temos 20 milhões de pessoas suscetíveis”.

O texto do boletim ecoa essa tendência. De acordo com o documento, “a região Centro-Oeste apresentou a maior taxa de incidência de Zika: 193,5 casos/100 mil hab. Entre os estados, destacam-se Mato Grosso (672,8 casos/100 mil hab.), Rio de Janeiro (363,6 casos/100 mil hab.) e Bahia (331,1 casos/100 mil hab.)”.

O grande gargalo ainda é o controle do mosquito

Fazer projeções sobre a evolução dessas epidemias é uma tarefa ingrata – são muitos fatores em jogo e o cálculo sempre passará por uma questão que a ciência ainda não encontrou a resposta: o avanço de um vírus pode representar o recuo de outro? “Ninguém sabe”, diz Massad. “É a pergunta de um milhão de dólares”. Ainda faltam dados sobre a possibilidade de o mesmo Aedes aegypti carregar simultaneamente a dengue e a Zika, por exemplo.  Apesar da ausência de certezas, pode-se supor que existe mosquito de sobra e que essa competição não existe: afinal, os dados mostram um crescimento em conjunto das três doenças.

Na hora de projetar o futuro, o professor não é menos pessimista. “Você sabia que a probabilidade de uma pessoa levar uma picada de Aedes aegypti durante o carnaval do Rio é de 99,9%?”. A estatística parte do princípio de que durante o período haverá de 5 a 10 Aedes aegypti para cada ser humano e não trata necessariamente de mosquitos infectados, mas demonstra o tamanho do problema – e da população de mosquitos selvagens em áreas urbanas.

A probabilidade de uma pessoa levar uma picada de Aedes aegypti durante o carnaval do Rio é de 99,9%

O cenário traçado por Massad e endossado pelo último boletim epidemiológico é preocupante. Já a solução, apesar de ser facilmente identificada, é muito difícil de ser colocada em prática em um país com as dimensões do Brasil. “O grande gargalo ainda é o controle do mosquito – com as ferramentas atuais já estamos no limite. Tudo que se tentou fazer até agora fracassou”, conclui o professor.

Segundo ele, a menos que alguma política de controle de vetores mostre eficácia inédita, populações do Aedes aegypti continuarão a sustentar epidemias no Brasil. “Estou convencido de que o Aedes aegypti é uma nova praga urbana. Eu o comparo a baratas e ratos”.