Epidemia urbana de febre amarela “seria um desastre”, diz infectologista

A vacina da febre amarela te protege por 10 anos - mas não é todo mundo que pode tomar (Foto: OMS)
A vacina da febre amarela te protege por 10 anos - mas não é todo mundo que pode tomar (Foto: OMS)
Para infectologista é improvável, mas não impossível, que a doença volte a se propagar através do Aedes aegypti

Três semanas após a primeira notificação de febre amarela do ano no país, em janeiro, o surto atual já contabiliza 421 casos suspeitos e 62 confirmados, espalhados por cinco estados. Até agora 87 mortes vêm sendo investigadas – 34 das quais já confirmadas como vítimas do vírus. Estaria a febre amarela já deixando o ambiente silvestre, onde mosquitos Haemagogus são o o vetor, para se tornar uma epidemia urbana?

O ciclo infeccioso em pessoas teve início em Minas Gerais, estado que registrou a pior epidemia de dengue no país em 2016. Agora já há casos também em São Paulo, Espírito Santo, Bahia e Distrito Federal. O espalhamento da doença já é um risco real de que populações do Aedes aegypti, um mosquito essencialmente urbano, também esteja transmitindo o vírus. Mas qual o tamanho do risco?

Para responder essa e outras perguntas, o portal Aedes do Bem™! conversou com a infectologista e professora da UFPA (Universidade Federal do Pará), Helena Brígido. “Ainda que seja preocupante, acho que em poucas semanas o surto para. Não vai expandir”, afirma.

Como muitos infectologistas, Helena ressalta que o sinal vermelho só deve ser aceso quando a forma urbana da doença, erradicada do Brasil desde 1942, reaparecer. “Isso seria um desastre”, alerta a médica, integrante do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia. Olhando em retrospecto – e considerando apenas os 272 casos confirmados até 21 de janeiro –  o surto atual já era o mais grave desde 2009, quando 47 casos foram notificados. O número de mortos, porém, já é bem maior que os 17 óbitos ao longo de 2009.

Confira a entrevista abaixo:

Qual é o cenário mais pessimista e qual o mais otimista para o atual surto de febre amarela?  
O cenário otimista é o mesmo que eu acho que vai acontecer: ainda teremos mais casos, infelizmente teremos óbitos, mas em poucas semanas acaba. A doença continuará como endêmica no local, e a vigilância vai ter que ter muito mais rigor de controle. O pior cenário é a urbanização da febre amarela. Pessoas que estão dentro da cidade, que não viajaram para esses locais e foram infectadas. Isso é raro, mas é possível. E se acontecer é um desastre: tem Aedes no Brasil inteiro. Mas eu acredito que isso não irá acontecer.

A população brasileira não tem motivos pra se desesperar, então?

Motivo tem. A possibilidade existe.

Qual a taxa de letalidade da febre amarela?

Se o quadro for maligno, 50% [dos casos notificados]. O quadro recua naturalmente em 90% das pessoas contaminadas, que se recuperam com medicação, hidratação, às vezes nem chegam a procurar tratamento médico, porque os sintomas são leves. Os outros 10% podem evoluir pra fase grave ou pra fase maligna. Desses 10%, metade pode evoluir para o óbito.

Como um ser humano é contaminado pela febre amarela silvestre?

Na febre amarela silvestre, o homem não é um infectado regular, é um infectado acidental. O infectado regular é o macaco. Os mosquitos Haemagogus e Sabethes se alimentam de sangue de macaco, mas quando o ser humano adentra a mata, ele pode pegar a febre amarela acidentalmente.

Como podemos ter certeza que todos os casos até agora são de febre amarela silvestre e não urbana?

Todos os casos precisam ser avaliados por um médico. As perguntas cruciais dessa avaliação são: “viajou pra algum lugar? Pra onde? Nesse local tem febre amarela? Faz quanto tempo que você voltou?” Se a pessoa voltou há 30 dias, não é silvestre. Se foi há 10 dias, então é silvestre. O número de dias é importante por causa do período de incubação do vírus, que é de sete, dez dias no máximo, podendo acontecer em dois dias – vai depender da defesa do organismo e da quantidade de vírus que foi adquirida. O período de incubação é o tempo que leva entre a pessoa ser picada e a manifestação dos primeiros sintomas.

Uma estimativa indica que a cada 10 milhões de pessoas vacinadas, uma morre em decorrência de complicações causadas pela vacina. Por que isso ocorre?

Pra vacinar, tem que ter triagem. A vacina consiste na ideia de injetar um vírus atenuado e o organismo acreditar que é um vírus vivo, produzindo anticorpos contra ele. Quem não pode tomar: mulheres amamentando crianças com menos de seis meses de vida, as próprias crianças com menos de seis meses, portadores de HIV, gestantes, pessoas com insuficiência renal, com câncer, transplantados. Qualquer um com imunossupressão pode ter um quadro grave de encefalopatia, encefalite. Quem tem alergia a ovo e seus derivados também não pode, já que a vacina é feita com ovo de galinha.

E como essas pessoas devem se proteger da febre amarela?

Com telagem, repelente e não viajando pra essas áreas. Se morar nas áreas atingidas, o jeito é usar muito repelente.

Hoje há um debate sobre a necessidade de ampliar ou não a cobertura geográfica da vacina contra a febre amarela. Qual sua opinião?

A vacina de febre amarela está disponível em todas as unidades de saúde de janeiro a janeiro. O que falta é a divulgação disso. “Olha, pessoal: tem vacina de poliomielite. Olha, pessoal, tem vacina de febre amarela também”.

Qual o motivo do período de dez dias de antecedência para tomar a vacina antes de viajar para um local atingido pelo surto?

No primeiro dia, o corpo já está produzindo anticorpos, mas depois de 10 dias é quase 100% de segurança que a quantidade de anticorpos será suficiente. Aí a pessoa pode viajar.