Na linha de frente

O secretário durante entrevista em seu gabinete (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Pedro Mello é o secretário de saúde responsável por levar o Aedes do Bem! para Piracicaba - veja o que ele tem a dizer sobre o projeto

Desde que aterrissou em terras brasileiras, há mais de 100 anos, o Aedes aegypti selvagem se adaptou ao Brasil. Desde então, o homem continuou lidando com ele sempre da mesma maneira. Para o Secretário de Saúde de Piracicaba, o médico Pedro Mello, o Brasil está perdendo a luta contra dengue, Zika e chikungunya justamente por esse motivo: a mesmice. Piracicaba resolveu pensar fora da caixa e foi o primeiro município paulista a apostar nos mosquitos geneticamente modificados – antes, apenas Jacobina-BA e Juazeiro-BA haviam realizado testes no país. A aposta da prefeitura piracicabana foi certeira: resultados preliminares mostram que as larvas selvagens do Aedes aegypti foram reduzidas  em 82% no bairro do CECAP/Eldorado, primeiro local escolhido pela Prefeitura para ser tratado pelos Aedes do Bem!. Um dado fornecido pela Secretaria de Saúde de Piracicaba demonstra a força do Aedes do Bem: entre o inverno de 2014 e o outono de 2015, o CECAP teve 132 casos de dengue – do período que vai de 5 de julho de 2015 a 11 de abril de 2016, o mesmo bairro teve seis casos confirmados.

Em entrevista ao portal Aedes do Bem!, o secretário fala sobre a parceria pioneira com a Oxitec e compara os mosquitos geneticamente modificados com outros métodos de combate ao Aedes selvagem. Para Pedro, a diferença é que o mosquito chega aonde o homem não consegue chegar: “O Aedes do Bem trabalha para o ser humano”. Com a palavra, o secretário.

Pedro Mello é o grande responsável pela chegada do Aedes do Bem a Piracicaba (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Pedro Mello é o grande responsável pela chegada do Aedes do Bem a Piracicaba (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)

Como começou a parceria entre a Oxitec e a Secretaria de Saúde de Piracicaba?

Quando a gente assumiu a Secretaria de Saúde, em 20 de maio de 2013, Piracicaba estava em um período crítico da dengue. Nós estávamos vivendo as dificuldades de um processo epidemiológico e observamos que os mesmos procedimentos eram feitos havia mais de 100 anos. Visita domiciliar, eliminação dos ninhos do Aedes, toda aquela parafernália. Na realidade, a gente não estava conseguindo controlar o processo epidêmico, muito pelo contrário. Quando soubemos que a Oxitec fazia uma experiência lá nas cidades baianas de Jacobina e Juazeiro, fomos conhecer pra saber qual era o real domínio da tecnologia que eles tinham. A partir daí resolvemos apostar no uso do Aedes do Bem no CECAP/Eldorado: um bairro com uma população em torno de seis mil habitantes, que em 2014 teve um monte de casos de dengue.

E como a parceria funciona na prática?

Foi feito um compartilhamento de custos entre a Prefeitura de Piracicaba e a Oxitec. Nele, a Prefeitura investiu um valor de R$ 30 por habitante ao ano.Como a população no CECAP é de quase 6 mil habitantes, deu em torno de R$ 150 mil [o investimento da prefeitura no Projeto do Aedes do Bem!. Todos os demais custos envolvidos no Projeto, incluindo contratação de pessoas, equipamentos e veículos, ficaram por conta da Oxitec].

Você comentou que o Aedes aegypti vem sendo combatido da mesma forma há 100 anos. O que você pode dizer dessa luta histórica contra mosquitos transmissores de doenças no Brasil?

Na época que o Rio de Janeiro tinha uma epidemia de febre amarela, o Oswaldo Cruz fez – com uma truculência enorme – o que nós fazemos hoje. Passou trator nos cortiços, pulverizou… Naquela época deu certo, mas hoje nós não podemos ter essa truculência. Um dos bairros em que temos uma incidência grande (de casos de dengue) é uma comunidade de difícil acesso. Se onde conseguimos penetrar já não tem o controle ideal, imagina onde não conseguimos penetrar. O Brasil todo tem essa mesma sensação: o Aedes aegypti dominou. O mosquito sofreu um processo de adaptação e aprendeu a conviver dentro do ambiente domiciliar. Ele se adaptou e é preguiçoso, né? Fica no nosso entorno, a gente não está nem percebendo e ele está lá trabalhando, fazendo sua proliferação.

Você pode falar um pouco sobre o processo de conscientização do público que foi feito com os moradores do CECAP/Eldorado? Quantos agentes de saúde foram destacados para dialogar com a comunidade antes de os mosquitos serem soltos? 

Foram 18 agentes públicos, mais o pessoal da Oxitec. Esse trabalho foi importante porque o agente comunitário de saúde mora no bairro, as pessoas conhecem e têm confiança neles. A partir do momento que uma pessoa em quem você confia e que está no seu dia a dia te transmite uma ideia, você acredita. Os agentes foram de fundamental importância na credibilidade do processo. A Oxitec era um fator novo na cidade, mas os agentes comunitários não. Esse trabalho educacional foi muito bom, principalmente porque você tinha que ter a consciência de que o mosquito que você está soltando não te pica. A população não sabe – ou não sabia – que era só a fêmea que usa seu sangue pra maturar seus ovos e que o macho não pica. Não é um trabalho tão simples.

Por qual motivo o CECAP/Eldorado foi o primeiro bairro escolhido?

Proporcionalmente, o CECAP/Eldorado era um dos locais com mais casos de dengue da cidade. Você tolera um caso pra cada mil pessoas. Um bairro com seis mil habitantes ter 132 pessoas com dengue, você vê como estava fora de propósito. Deveria ter seis casos. Mais que um caso pra cada mil pessoas é considerado estado emergencial.

Antes do Aedes do Bem!, quais eram as principais medidas contra o mosquito selvagem aqui em Piracicaba?

As principais medidas antes do Aedes do Bem continuam sendo tomadas. Tem a visita casa a casa para eliminar o criadouro e mutirões para retirar os inservíveis (entulho) – nesses momentos você está eliminando a população futura do mosquito. Depois, você tem a dedetização, que é quando você destrói a população adulta. Além disso, quando você define que existe uma determinada casa na região que tem um foco da doença, você faz um bloqueio ampliado em vários quarteirões pra tentar destruir a população adulta por meio da nebulização, o “fumacê” que a gente chama.

E quais os principais problemas da dedetização?

A dedetização é universal: você mata tudo que está voando. Mata mosquito, mosca, abelha, borboleta…há uma diversificação de insetos que são destruídos pelo fumacê. Além de que você tem o problema  dos mosquitos que desenvolvem resistência ao produto e, queira ou não queira, o inseticida é tóxico.

Se você tivesse que escolher um ponto positivo principal do Aedes do Bem!, qual seria?

Existe o morador que é minucioso e olha todos os detalhes da casa e existe o que não olha. O mosquito não, ele é universal. É uma coisa natural: ele vai atrás das fêmeas. A gente vê queixa de agentes que não entraram em um quintal, por exemplo. O mosquito não tem essa distinção. Onde estiver uma “mosquita” ele vai buscá-la. Sempre tem alguns espaços que o agente não vê, como uma laje com bloqueio, uma calha. Onde estiver uma fêmea, o mosquito vaia trás. Como eles são muitos, então muitos vão atrás. O Aedes do Bem é um instrumento que trabalha para o ser humano.