Por que o Ceará vive uma epidemia grave de chikungunya em 2017

Vista panorâmica de Fortaleza, capital cearense: epidemia de chikungunya tardou, mas não falhou (Foto: Julião Matos/Wikimedia Commons)
Vista panorâmica de Fortaleza, capital cearense: epidemia de chikungunya tardou, mas não falhou (Foto: Julião Matos/Wikimedia Commons)
Presença do vírus quadruplicou no estado e já ultrapassa a dengue, que se mantém alta entre cearenses enquanto a média nacional cai

Em um ano que o Brasil registra, até o momento, quedas nas taxas de incidência de dengue, Zika e chikungunya, o Ceará vive uma epidemia de duas delas: chikungunya e dengue.

Até maio de 2017 – em comparação com o mesmo período de 2016 – o estado apresentou uma diminuição de Zika bem menor que o restante do país, manteve-se estável em relação à dengue enquanto os números do Brasil diminuíram em quase três vezes e viu os casos de chikungunya quase quadruplicarem enquanto no resto do país a incidência dessa doença praticamente caiu pela metade.

O portal Aedes do Bem! conversou com o epidemiologista Luciano Pamplona, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, para entender o que está por trás da exceção cearense. Confira a seguir a análise de Pamplona sobre a perspectiva do Ceará em relação ao comportamento das três principais arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti selvagem no Brasil.

 

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“Essa epidemia era absolutamente previsível, porque aqui ela aconteceu mais tarde do que nos outros estados. E, se em um ano a taxa foi baixa, provavelmente no outro ano a taxa será alta”, explica o professor. Em 2016, na semana epidemiológica 19, o Ceará registrava a segunda menor incidência do Nordeste, apenas o Piauí tinha menos casos. “Eu seria muito otimista se dissesse que isso (a chegada tardia de chikungunya no Ceará) aconteceu porque nosso controle de vetor foi eficiente, mas a verdade é que ninguém tem ideia do motivo. Em abril de 2017, na cidade de Fortaleza, já não tinha uma família que não relatasse alguém com chikungunya”.

 

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“A comparação de estado por estado e município por município é difícil de ser feita porque cada lugar tem um momento epidemiológico distinto do outro. O Ceará, invariavelmente, tem um número importante de casos de dengue todos os anos. Isso vem se mantendo há alguns anos. A gente tem dados de que a 87% da população de Fortaleza já foi exposta pelo menos uma vez ao vírus da dengue”.

No Nordeste, o primeiro semestre é nosso verão, então eu tenho temperatura elevada e chuva, o que favorece a dispersão e a reprodução do mosquito. No nosso verão, o Aedes aegypti selvagem, que viveria seus 20, 30 dias, passa a viver 40, 50 dias. Então há um mosquito infectado vivendo e transmitindo a dengue por mais tempo. Tanto que o período das epidemias de dengue do Nordeste são muito marcados: é de março a maio”.

 

 

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“Enquanto para chikungunya e dengue a gente tem algumas hipóteses, Zika foi uma grande incógnita”, diz Pamplona. O epidemiologista alerta para o fato que, seguindo a recomendação do Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa) monitora casos de Zika apenas em gestantes. Explica-se: “A Zika pela Zika não é um problema de saúde pública. O grande problema é sua associação com os casos de microcefalia”. Pamplona afirma que em 2016 ninguém esperava uma redução tão drástica nos casos de Zika. “Esperava-se que a epidemia de microcefalia fosse permanecer por vários anos”. Apesar de surpreendente, a queda pode ser justificada por dois fatores: diminuição na quantidade de mulheres grávidas e precaução. “Gestantes fazem uma proteção individual melhor que o resto da população; elas usam mais repelente”.

Mosquito na seca

Uma das explicações para o Ceará estar apresentando uma população de Aedes aegypti mais persistente é um antigo hábito cultivado graças às fortes secas na região: o armazenamento de água. O problema não está no hábito em si, mas na falta de reservatórios protegidos, evitando que o local seja usado como criadouro pelo mosquito. “Eu não posso dizer para as pessoas não armazenarem água, mas eu posso explicar como elas devem fazer isso. Esse é um processo de educação que talvez demore uma geração”, opina Pamplona.

“Essa epidemia de chikungunya era absolutamente previsível, porque aqui ela aconteceu mais tarde do que nos outros estados. E, se em um ano a taxa foi baixa, provavelmente no outro ano a taxa será alta”

– Luciano Pamplona, epidemiologista

O professor da Federal do Ceará, Luciano Pamplona (Foto: Arquivo Pessoal)
O professor da Universidade Federal do Ceará, Luciano Pamplona (Foto: Arquivo Pessoal)

Os municípios cearenses de Reriutaba, Maranguape e Iguatu, todos no sertão do estado, comprovam a hipótese de Pamplona. Essas cidades figuram nos rankings do Ministério da Saúde de piores taxas de incidência das três arboviroses. Ou seja: atualmente os três municípios apresentam altas taxas de dengue, Zika e chikungunya simultaneamente. Com relação a chikungunya, especificamente, o pequeno município de General Sampaio, com menos de 7.000 habitantes, tem a pior incidência de chikungunya do país: mais de 5% da população foi diagnosticada com o vírus.

O que essas localidades têm em comum? Todas estão no interior, em regiões secas.

De acordo com o LIRAa (Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti), no ano passado o armazenamento de água representava 76% dos repositórios de larvas Aedes aegypti no Nordeste – para efeito comparativo, o índice do Sudeste é de 33%. Apesar disso, o LIRAa só classificou um município cearense – Reriutaba – como situação de alerta em 2016. A situação de Maranguape e Iguatu era tida como “satisfatória”. O LIRAa de 2017 ainda não divulgou seus dados nacionais.

Estados como Maranhão e Rio Grande do Norte, vizinhos ao Norte e ao Sul do Ceará respectivamente, poderiam contrariar a tese de Pamplona – que também é a tese da Sesa. São estados quentes e geograficamente próximos ao Ceará, mas onde a queda das taxas de incidência acompanhou o restante do Brasil. “A série histórica da epidemia no Ceará é muito parecida com a do Rio de Janeiro”, explica o professor. “Historicamente estamos muito próximos do Rio. Não sei o motivo, mas talvez possa ter a ver com o turismo, que é muito mais forte aqui do que no Maranhão ou no Rio Grande do Norte”.

Controle de vetor

No último dia 12 de junho, o governador Camilo Santana anunciou que vai distribuir R$ 10 milhões entre os municípios cearenses que atingirem os melhores resultados no combate à proliferação da dengue, Zika e chikungunya. A ideia é incentivar boas práticas na gestão de saúde pública, mas, independentemente de esforços para controle de proliferação do Aedes aegypti, Pamplona acredita que ano que vem as taxas de incidência das arboviroses devem cair naturalmente no Ceará.

“É muito provável que em 2018 o Ceará tenha uma redução grande, ainda maior que a do resto do Brasil em 2017. Quanto maior a epidemia em um ano, maior a chance de haver uma grande redução no ano seguinte”, diz Pamplona. Isso ocorre não por falta de mosquitos, mas porque a maior disseminação dos vírus em um ano ativa naturalmente a imunidade das pessoas, desacelerando o ciclo epidêmico.

O desafio no Ceará – e no resto do país – é conseguir controlar as doenças exterminando o mosquito, e não usando uma parcela grande da população como “escudo humano” para proteger outra.