Surto de febre amarela liga alerta para risco de epidemia

O macaco-prego, primata ocasionalmente afetado pela febre amarela silvestre em florestas do Brasil (Foto: Dario Sanches/Wikimedia Commons)
O macaco-prego, primata ocasionalmente afetado pela febre amarela silvestre em florestas do Brasil (Foto: Dario Sanches/Wikimedia Commons)
MG registrou 133 casos suspeitos no início do ano, com 38 mortes sob investigação. Estado de emergência é decretado em 152 municípios.

A febre amarela, doença que desde 2004 estava relativamente adormecida em solo brasileiro, está novamente despertando a atenção das autoridades: na primeira metade de janeiro deste ano, 133 casos suspeitos foram registrados no leste de Minas Gerais, espalhados por 24 municípios. O surto, que segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais foi desencadeado pela variedade silvestre da doença, (transmitida de animais para pessoas por mosquitos do gênero Haemagogus), acende o alerta para o risco dos Aedes aegypti selvagens começarem a espalhar a infecção de humanos para humanos.

Dez mortes já foram atribuídas à doença e outras 38 estão sendo investigadas. O Governo de Minas já decretou situação de emergência em 152 municípios no leste do Estado, onde o surto ocorre. Das 133 ocorrências suspeitas, 20 (incluindo as mortes) são considerados “casos prováveis”, aqueles nos quais o exame laboratorial deu positivo, mas ainda carecem de investigação epidemiológica. Até o dia 13 de janeiro, todos os infectados eram homens.

 As investigações da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais começaram no dia 2 de janeiro, quando as Unidades Regionais de Saúde de Teófilo Otoni e Coronel Fabriciano notificaram a entidade a respeito de casos de febre hemorrágica em suas respectivas jurisdições. No dia 9, a Regional de Governador Valadares notificou a ocorrência de uma epizootia, termo usado para epidemias que ocorrem na comunidade animal.

Pessoas com viagem marcada para os locais sob suspeita devem se vacinar contra febre amarela com 10 dias de antecedência. O governo de Minas está realizando vacinação domiciliar em partes isoladas dessas cidades e o Ministério da Saúde anunciou o envio de uma dose extra de 285 mil doses da vacina, quase dobrando o estoque do estado, que originalmente era de 280 mil doses.

A Organização Mundial de Saúde publicou uma nota oficial em seu site, se posicionando sobre os recentes casos de febre amarela em Minas Gerais. Confira um trecho do comunicado:

Um surto de febre amarela já havia sido detectado em Minas Gerais: o mais recente, ocorrido em 2002-2003, teve 63 casos confirmados, incluindo 23 mortes (uma taxa de letalidade de 37%). (…) O surto atual está acontecendo em uma área com uma cobertura relativamente baixa de vacinação, o que poderia facilitar o rápido avanço da doença. (…) A preocupação é que a transmissão se estenda para o Espírito Santo e o sul da Bahia, regiões com ecossistemas favoráveis para o alastramento do vírus. (…) A introdução do virus nessas áreas poderia dar início à grandes epidemias de febre amarela. Há também o risco de que humanos infectados viajem para as áreas afetadas, dentro ou fora do Brasil, onde os mosquitos Aedes estão presentes, iniciando ciclos locais de transmissão de humano para humano. As ações de combate ficam ainda mais complicadas devido aos surtos concomitantes de Zika, chikungunya e dengue.

Em entrevista ao portal Aedes do Bem™! no dia 24 de novembro de 2016, o epidemiologista  da USP, Eduardo Massad, já projetava um eminente surto da doença no Brasil. “Minha preocupação é a febre amarela. É uma bomba-relógio”, disse à época. Segundo o professor, cada caso notificado da doença representa, na verdade, oito ocorrências.

Ele também comentou sobre a letalidade da febre amarela. “É uma doença devastadora, que mata: se você não vacina, pessoas morrem pelo vírus. Se você vacina muita gente, pessoas vão morrer por causa da vacina”. Cálculos matemáticos indicam que a cada 10 milhões de pessoas vacinadas, uma irá morrer em decorrência do procedimento. Por isso, o ideal é vacinar uma determinada quantidade de pessoas – a lógica não é a do “quanto mais gente vacinada melhor”.

Massad disse ainda que está realizando um trabalhando junto ao Ministério da Saúde para traçar uma estratégia de vacinação para as populações de cidades da costa brasileira, que não são vacinadas rotineiramente.

SILVESTRE x URBANA

Até onde se sabe, segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais, todos os casos do novo surto são de febre amarela silvestre, transmitida pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e também Sabethes. É relativamente comum no Brasil encontrar macacos como o bugio e o macaco-prego mortos por febre amarela. A forma urbana da doença está erradicada do território brasileiro desde 1942, mas autoridades e especialistas estão sob alerta, pois o transmissor da febre amarela urbana é o Aedes aegypti selvagem, vetor cuja população vem crescendo fora de controle. Em 2016, Minas Gerais teve a pior epidemia de dengue do país, com mais de 500 mil casos registrados.

A febre amarela tem sintomas marcantes: febre alta, vômitos, fadiga, calafrios, náuseas e dores musculares por três dias. Olhos e pele com uma coloração amarelada são comuns e deram origem ao nome da doença. Não existe um tratamento específico – depois de hospitalizado, o paciente tem de ficar em repouso e repor os líquidos. Em casos mais graves, porém, a pessoa precisa de cuidados que apenas a UTI de um hospital oferece, pois há risco de hemorragia em várias partes do corpo (gengivas, nariz e intestino, por exemplo), insuficiência renal e hepática. Apesar de ser uma doença grave, quando há supervisão médica, na maioria das vezes o paciente se recupera. É o caso do médico Drauzio Varella, acometido pela febre amarela silvestre em 2005.