Pioneirismo em expansão

Gabriel Ferrato, prefeito de Piracicaba (Foto: Alexandre Carvalho/Divulgação)
Gabriel Ferrato, prefeito de Piracicaba, fala sobre a experiência em usar o Aedes do Bem! para combater o mosquito da dengue, Zika e chikungunya

Os gastos de um município para controlar Aedes aegypti não devem ser considerados “despesa”, mas sim “investimento”. Essa é a visão do prefeito de Piracicaba (SP), Gabriel Ferrato , pioneiro na adoção de uma nova tecnologia de combate ao mosquito que transmite dengue, Zika e chikungunya. Doutor em economia pela Unicamp, ele logo percebeu a oportunidade que tinha quando conheceu o Aedes do Bem!, o inseto geneticamente modificado que faz a população selvagem de mosquitos diminuir.

Piracicaba foi a primeira cidade paulista a receber um projeto piloto da nova tecnologia. Após um ano de uso no bairro do Cecap/Eldorado, os moradores do bairro e da cidade já enxergam os efeitos do uso do Aedes do Bem!. Além de atacar o vetor de doenças (dengue, Zika e chikungunya), ele pode trazer benefícios econômicos. “Não olho só a eliminação dos mosquitos, mas a redução da incidência de doenças, das internações, medicações, faltas ao trabalho. Ao longo do tempo, é claro que eu acho que o custo vai se mostrar favorável.”, afirmou Ferrato.

Resultados preliminares já mostram que o número de larvas do Aedes aegypti selvagem caiu 82% após oito meses de uso do Aedes do Bem! em relação a uma área que não recebeu o tratamento com ele. E mais: o impacto, segundo dados da secretaria de Saúde de Piracicaba, começa a aparecer no número de pessoas doentes. “De julho de 2014 a junho de 2015, o CECAP/Eldorado havia registrado 133 casos de dengue no CECAP/Eldorado, uma incidência altíssima. De julho de 2015 a 20 de maio de 2016, apenas 7 casos foram confirmados”, afirmou o secretário de Saúde de Piracicaba, Pedro Mello.

Agora, a região central da cidade também vai ser tratada com o Aedes do Bem!. Segundo Sebastião Amaral Campos, coordenador do Plano Municipal de Combate à Dengue, o projeto na área central compreende 11 bairros. “Iremos tratar Centro, Cidade Alta, Cidade Jardim, Clube de Campo, Jardim Monumento, Nhô Quim, Nova Piracicaba, Parque da Rua do Porto, São Dimas, São Judas e Vila Rezende) que tem cerca de 60 mil moradores, mas estou confiante de que juntos traremos benefícios para a cidade inteira, pois todos os dias a região central recebe um grande número de visitantes a trabalho e a lazer.”

Em entrevista ao portal Aedes do Bem!, o prefeito Gabriel Ferrato conta qual é sua impressão do projeto até agora, quais são suas expectativas para a expansão e explica o que o levou a ser um pioneiro na adoção dessa tecnologia inovadora.

Qual balanço você faz do primeiro ano de Aedes do Bem! no CECAP/Eldorado?

Foi extremamente positivo. Os resultados são promissores: não foi por outro motivo que nós tomamos a decisão de expandir o projeto; 82% de redução [de larvas de Aedes aegypti selvagens] é uma cifra expressiva. Na área central, que é diferente dessa área do CECAP/Eldorado, eu tenho a impressão que os resultados serão equivalentes. Isso pra nós é motivo de muita esperança, de reverter a situação não só da dengue, mas agora da chikungunya e da Zika, que tem consequências como a microcefalia. Tudo isso tem um custo altíssimo para o Estado brasileiro, se deixamos que ocorra livremente. Então, essa experiência é muito importante, não só pra Piracicaba, mas para todo o país.
Quem sabe haverá outros olhos sobre a questão nacional, que hoje, a meu ver, ainda se limita aos métodos convencionais e à busca de vacina, que ninguém sabe quando vai sair e nem qual será a eficácia. Aqui em Piracicaba não. Nós já temos resultados. Tenho a impressão que essa experiência passa a ser relevante pra nós e pra todo o país.

Nós já temos resultados. Tenho a impressão que essa experiência passa a ser relevante pra nós e pra todo o país.

E quais são suas expectativas agora que o projeto se expandiu pra 11 bairros aqui do centro?

Primeiro que a população se envolva. Sem ela nada disso acontece. Eu tenho a impressão que, dada a gravidade manifestada permanentemente na mídia, a colaboração da população deverá ser boa. E que essa mesma população entenda que estamos no rumo certo na tentativa de protegê-la. A expectativa é muito favorável com relação aos resultados.

Depois desses 11 bairros da região central, você pretende levar o Aedes do Bem! para todo o território de Piracicaba?

Tem que avaliar. É claro que o impacto [com a atual expansão do projeto para a região central da cidade] não vai ser só nessa região, tem um impacto indireto, porque no centro circula muita gente dos bairros todos. Dando certo, o ideal seria substituir a metodologia convencional pelo Aedes do Bem!. Acho que, no médio prazo, o custo desse novo processo seria equivalente ao custo da tecnologia tradicional, só que com muito mais resultados. Claro, se houvesse recursos já estaria fazendo na cidade inteira. Tive que escolher a área mais crítica pra continuar o trabalho.

Você foi pioneiro na adoção do uso dessa tecnologia. Como se sente em relação a isso?

Olha, eu me sinto gratificado, claro. É uma decisão complexa, a gente está implementando e parece que a solução é simples. Não é. Nós fizemos toda uma avaliação anterior pra ver se valia a pena e quais seriam os riscos pra nós, porque há um problema de compreensão da sociedade. Você tem que enfrentar isso. Felizmente superamos essa etapa. A gente pode, como gestor, tomar decisões dessa natureza, que têm impacto positivo na vida e no bem-estar das pessoas. É motivo de satisfação sempre e na saúde é mais gratificante ainda. A vida de gestor é pra isso, estamos aqui pra isso, não estamos pra outra coisa.

Hoje sei que essa não é uma tecnologia passageira. Os resultados são muito expressivos e por conta disto tomamos essa decisão [de expandir o projeto para o centro].

A sua formação como economista influenciou na sua decisão de adotar o Aedes do Bem!?

Eu sou economista, portanto, não olho só a eliminação dos mosquitos, mas a redução da incidência de doenças, das internações, medicações, faltas ao trabalho. Ao longo do tempo, é claro que eu acho que o custo vai se mostrar favorável para o uso dessa tecnologia. É quase que certeza. Com o tempo dá pra fazer essa avaliação econômica, mas a minha sensação em princípio é que de deve ter um custo menor considerando esses demais fatores citados: internação, mais médicos e enfermeiros pra cuidar, mais leitos disponíveis, o que você gasta na emergência e tudo mais.

Por que você resolveu apostar no Aedes do Bem!?

Eu tenho uma vida acadêmica, passei minha vida na universidade. Não na área de pesquisa biológica, mas convivi com os acadêmicos todos das diversas áreas. E na economia, a discussão sobre transgenia e biotecnologia também é muito presente. Uma das coisas que se discute até hoje na academia é a questão da utilização da biotecnologia enquanto inovação para o bem-estar das pessoas. Eu participei de várias conversas na Unicamp e já conhecia a aplicação disso no campo. Eu sabia dos resultados. Por acreditar na tecnologia, a gente tomou o cuidado de verificar a experiência que a empresa já tinha feito e, como tinha dado resultados positivos, eu tomei a decisão, que foi muito bem estudada, tomei com muita tranquilidade.

Conhecendo e vendo a aprovação da CTNBio [Comissão Técnica Nacional de Biossegurança], eu falei ‘não tem nenhum problema’. São cientistas brasileiros e avaliaram que não tem nenhum problema. Eu me cerquei de cuidados, tanto que a decisão demorou cerca de um ano. Hoje sei que essa não é uma tecnologia passageira. Os resultados são muito expressivos e por conta disto tomamos essa decisão [de expandir o projeto para o centro].