Um ano de Zika no Brasil

O Zika vírus: um ano de Brasil (Crédito: Wikimedia Commons)
O Brasil nunca mais foi o mesmo depois do dia 7 de maio de 2015 - uma data que não inspira nenhum tipo de comemoração

Neste sábado o vírus zika completa um ano de presença no Brasil. Desde a confirmação do primeiro caso por exame laboratorial, em 7 de maio de 2015, a epidemia se alastrou pelo país, invadiu o noticiário e virou assunto cativo no dia a dia do brasileiro. O começo dessa história tem uma origem incerta, mas o histórico da disseminação do vírus ilustra como, em poucos meses, um patógeno tido como relativamente inócuo se tornou a epidemia mais preocupante do país.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a hipótese mais aceita para explicar a chegada do vírus em terras brasileiras passa pelo campeonato mundial de canoagem, sediado no Rio de Janeiro entre junho e julho de 2014. Como o vírus que vem circulando no Brasil é idêntico ao encontrado na Polinésia Francesa, é esse evento de canoagem – e não a Copa do Mundo de futebol, que ocorreu no mesmo período – o provável ponto zero da epidemia, já que na Copa não havia equipes de países com surtos da doença. No mundial de canoagem vieram para o Brasil representantes de quatro países do Pacífico Sul (incluindo a Polinésia Francesa), região que passou por uma intensa epidemia de zika entre 2013 e 2014.

Foi em 7 de maio de 2015 que as autoridades brasileiras confirmaram que o vírus estava circulando em território nacional, mas ele evidentemente já estava presente antes. O fato ganhou repercussão internacional por ter sido o primeiro registro transmissão autóctone da doença nas Américas.  Antes da confirmação oficial, porém, entre fevereiro e abril de 2015, sete mil pacientes deram entrada em diferentes hospitais do Nordeste apresentando erupção cutânea, fadiga e dores no corpo, sintomas de uma velha conhecida do povo brasileiro, a dengue. Mas a doença que acometeu essas pessoas não tinha nada de conhecido.

Em julho, os casos de Zika já se espalhavam por 12 estados brasileiros. Em 22 de outubro de 2015 começa uma nova fase da epidemia. Foi nesse dia que a Secretaria de Saúde de Pernambuco comunicou o Ministério da Saúde a respeito de um aumento súbito nos casos de microcefalia no estado. Quatro dias após a notificação, uma equipe de seis epidemiologistas foi enviada pelo Ministério da Saúde até Recife para que investigações de campo fossem realizadas. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a OMS foram foram alertadas sobre o novo cenário que começava a se desenhar.

No dia 11 de novembro o Ministério da Saúde declarou o zika Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional. Em 28 de novembro, exames feitos após o óbito de um bebê cearense nascido com microcefalia indicaram a presença do vírus em seus tecidos e no seu sangue. A suspeita, então, passou a ser tratada como evicência: havia provavelmente uma relação entre o zika e a microcefalia em recém-nascidos. O que os cientistas não sabiam dizer – e ainda não sabem – é como funciona exatamente essa transmissão entre gestante e feto.

A ameaça, naquele momento, já era real e crescente. No dia 5 de dezembro foi criado o Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia.  O dia 20 de janeiro de 2016 marcou o início da distribuição de 500 mil kits de testes para a realização de diagnóstico do vírus por RT-PCR, que detecta o material genético do vírus, ampliando a capacidade dos laboratórios públicos – que era de mil diagnósticos/mês – para 20 mil diagnósticos mensais. A Caderneta da Gestante, documento produzido anualmente pelo Ministério da Saúde para orientar profissionais de saúde citou o zika pela primeira vez em sua história, dando dicas para evitar a contaminação. Em abril foi divulgado um estudo preliminar que indica que o primeiro trimestre de uma gestação é o mais perigoso para as grávidas serem contaminadas pelo Zika, já que nesse período aumenta a probabilidade de os fetos desenvolverem microcefalia.

Segundo um relatório do Ministério da Saúde, até o dia 2 de abril de 2015, 91,3 mil prováveis casos de zika haviam sido notificados no país. Desse total, 7.584 eram gestantes com suspeita de zika e 2.844 eram casos confirmados. O número de bebês nascidos com microcefalia ou malformações no sistema nervoso – condições provavelmente causadas pelo Zika – foi de 1.198. Hoje, todos os estados brasileiros registram casos da doença.