Zika fez economia do Brasil perder até US$ 4,5 bilhões

Mulher segura filho portador de microcefalia no Recife-PE  (Foto: UNICEF/Ueslei Marcelino)
Mulher segura filho portador de microcefalia no Recife-PE (Foto: UNICEF/Ueslei Marcelino)
País amarga cerca de 25% do impacto econômico do vírus na América Latina e Caribe, diz ONU

Entre 2015 e 2017, a epidemia de Zika custou algo entre US$ 7 bilhões e US$ 18 bilhões à economia da América Latina e do Caribe mostrou estudo da ONU. O Brasil foi o país com a maior parcela absoluta de perdas: a estimativa mais recente indica um impacto de até US$ 4,5 bilhões, ou 26% do total da região.

Os números foram calculados para um estudo[1] publicado recentemente pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com a Cruz Vermelha Internacional.

O estudo mostra que a Zika castiga com mais intensidade as famílias mais pobres, assim como as outras arboviroses. “Além de perdas tangíveis para o PIB e para economias fortemente dependentes do turismo, e a pressão sobre os sistemas de saúde, as consequências em longo prazo do vírus Zika podem minar décadas de desenvolvimento social e árduas conquistas no campo da saúde “, disse a  Subsecretaria Geral da ONU e Diretora do PNUD para a América Latina e Caribe, Jessica Faieta.

Se em cada país a população com menos dinheiro é a mais vulnerável, o mesmo acontece em escala continental. De acordo com o PNUD, “o Zika afeta desproporcionalmente os países mais pobres da região”. Em todos os cenários analisados pelo estudo, as duas economias que vão perder a maior fração do PIB são Haiti e Belize, duas das nações mais pobres do planeta.

Como o Zika tipicamente provoca muitos casos assintomáticos ou não diagnosticados, os pesquisadores separaram a epidemia em três cenários possíveis, cada um projetando um grau diferente de alastramento do vírus. Ao longo dos três anos estudados, o cenário mais conservador considera um total para o Brasil de 2,3 milhões de infectados (incluindo uma estimativa de casos não notificados), e o cenário mais preocupante considera a possibilidade de até 88 milhões de infectados.

A curto prazo, os gastos são motivados principalmente por dois fatores: queda no turismo e diagnóstico de pacientes. O Caribe foi a região economicamente mais afetada pela epidemia: lá o prejuízo pode chegar a US$ 9 bilhões no pior cenário – 80% desse total vem da diminuição no turismo na região durante o período. O Brasil, por ter um volume maior de casos, acumula perdas absolutas maiores no setor de saúde.

A longo prazo, o principal fator são os custos diretos e indiretos relacionados à microcefalia e à síndrome de Guillain-Barré , que faz o sistema nervoso entrar em colapso. Cerca de 96% dos casos de microcefalia ligados ao Zika na América Latina e no Caribe vêm do Brasil – o que pode aumentar a parcela de perdas do país num período subsequente ao estudado. Segundo o estudo do PNUD, a típica mãe brasileira com um filho com microcefalia relacionada à síndrome da Zika congênita é jovem, solteira, afrodescendente, pobre e moradora de cidades pequenas ou zonas periféricas”.

Uma das conclusões do estudo é que “o custo econômico considerável do Zika destaca a necessidade de controlar o mosquito Aedes aegypti de forma integrada e multissetorial”.


Mazela brasileira

Os números do impacto da Zika no Brasil estimados para o triênio 2015/2016/2017*

US$ 4,6 bilhões:  valor total dos gastos do Brasil para arcar com a epidemia.

US$ 959 milhões: quanto custa diagnosticar e tratar todos os pacientes de Zika no país.

26%: é a parcela do Brasil no gasto total da América Latina e Caribe com a epidemia de Zika.

40%: é a parcela do Brasil no gasto total da América Latina e Caribe para atendimento a famílias de crianças com microcefalia e outros problemas de desenvolvimento neural ligados ao Zika.

US$ 890 mil: é o custo vitalício estimado para atendimento e suporte a uma criança com microcefalia no Brasil.

45%: queda na taxa de nascimento em clínicas particulares de Pernambuco em 2016. O estado é considerado o epicentro dos casos de microcefalia.

US$ 918 milhões: prejuízo econômico por faltas ao trabalho e queda da produtividade decorrentes do Zika.

* Valor referente ao cenário mais grave projetado no estudo do PNUD


 


[1] A Socio-Economic Impact Assessment of the Zika Virus in Latin America and the Caribbean, United Nations Development Programme + International Federation of the Red Cross and Red Crescent Societies. Abril, 2017. Versão online em www.undp.org.